sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Igreja necessita hoje de uma REFORMA PROTESTANTE. (p 89)

Meus comentários ao artigo estão no final do texto. Os destaques em negrito e sublinhados, fui eu quem colocou.

A igreja necessita hoje de uma reforma protestante.

Eduardo Hoonaert
Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados.
Publicado pela Agencia de Noticias ADITAL

A igreja católica hoje tem necessidade urgente de ‘protestantes’, ou seja, de pessoas que - na linha de personalidades dos séculos XV-XVI como Hus, Wycliff, Lutero, Zwingli, Calvino, Karlstadt, Münzer, Erasmo e Morus - protestam contra a condução da igreja católica pelos seus mais altos representantes em Roma. Está na hora de se resgatar o genuíno espírito protestante, exemplarmente representado por Martinho Lutero. Teço aqui algumas considerações em torno de seu trabalho de reforma da igreja católica em seu tempo.

1. De início, Lutero pensava em aproveitar de uma viagem a Roma para alertar o papa diante dos abusos cometidos por pregadores de indulgências. Portanto, sua primeira intenção não era formar uma igreja separada de Roma, mas reformar a igreja existente. Mas ele se decepcionou. Os burocratas do Vaticano não queriam ouvir falar de eliminar ou mesmo diminuir os lucros provenientes da venda de indulgências. Lutero resolveu então passar por cima de Roma e ir direto ao cristianismo bíblico.

2. Ele se mete imediatamente a trabalhar. Ao longo de 14 anos empreende a tarefa gigantesca de traduzir a bíblia em língua alemã. Refugiado no castelo de um príncipe amigo, ele manda de vez em quando alguém à cidade a fim de anotar, na feira, palavras utilizadas por vendedores de produtos agrícolas e que, em sua opinião, são adequadas a traduzir em alemão as palavras que ele encontra em hebraico, grego ou latim nos textos bíblicos. Pois Deus tem de falar a língua do povo. A paixão de Lutero pela tradução da bíblia em língua alemã faz dele um dos principais formadores dessa língua, tal qual ainda é falada hoje. Esse árduo trabalho intelectual é a melhor resposta de Lutero aos que dizem que ele é sonhador, idealista, e que seu projeto não tem futuro. É como se ele argumentasse: ‘Eu não sonho, trabalho. Faço o que posso para mudar as coisas, por mínima que seja minha contribuição’. Eis o que ele entende por ‘viver da fé’ (o justo vive da fé). Como Abraão, o primeiro homem (pelo menos na tradição bíblica) a viver da fé, Lutero vive da convicção de que as coisas podem mudar.

3. O filósofo Ernst Bloch escreveu um livro (‘Thomas Münzer, um teólogo da revolução’, 1921) em que ele critica Lutero por não ter participado da guerra dos camponeses. Em sua opinião, foi uma lamentável omissão. Mas há uma frente de combate em que Lutero se meteu e que talvez escape à atenção do filósofo materialista: o combate em terreno religioso. Lutero combate de forma destemida uma opressão menos patente que a opressão econômica, mas que penetra mais fundo na alma humana, perpetuando-se por sucessivas gerações. É o combate contra o que o historiador Jean Delumeau chama de ‘pastoral do medo’. O clero introduz na alma do povo o medo do diabo, do inferno, da condenação eterna, do pecado, e assim conquista respeito e autoridade. Fortalecido pela leitura do evangelho, Lutero levanta-se contra essa prática perversa em seu texto ‘Do cativeiro babilônico da igreja’ (publicado no Brasil pela editora sinodal, São Leopoldo, 1982). No entender das pessoas comuns, a vida cristã consiste em assistir à missa e às novenas, rezar muito, mandar celebrar missas pelos defuntos, participar de romarias, tudo isso para salvar sua alma e as almas de entes queridos. Lutero escreve: são exatamente essas práticas, criadas e encorajadas pela igreja, que mantêm o povo num cativeiro ‘babilônico’, do qual Jesus vem nos libertar. O mesmo raciocínio está na base do opúsculo ‘Da liberdade do homem cristão’ (igualmente publicado pela editora sinodal de São Leopoldo). O homem cristão liberta-se de cultos e práticas devocionais que não levam a nada e passa corajosamente a ‘viver da fé’, ou seja, a fazer algo em benefício dos outros, aqui e agora.


4. Eis o espírito de Lutero. O que importa hoje é captá-lo e traduzi-lo em práticas adaptadas ao nosso tempo, sejam elas de cunho religioso ou não. Lutero pertence à humanidade, não pode ser privatizado por alguma igreja ou confissão religiosa. Sempre existe uma diferença entre a inspiração de um inovador e o modo como seus seguidores ou admiradores conseguem captar e viver sua mensagem. Há diferença entre Lutero e luteranismo assim como há diferença entre Calvino e calvinismo, Agostinho e agostianismo, Marx e marxismo e, principalmente, entre Cristo e cristianismo. A constatação já foi feita por Marcião, um mestre cristão particularmente lúcido do século II, que dizia que nem todos os apóstolos conseguiram captar o espírito de Jesus. Não basta conviver com alguém para captar sua inspiração profunda. É possível que pessoas fisicamente distantes de alguém particularmente iluminado captem melhor seu espírito que os que convivem com ele. É o que aconteceu com os familiares de Jesus e os vizinhos da aldeia de Nazaré: não captaram seu espírito, como testemunha o evangelho de Marcos.

5. A cena do século XVI repete-se atualmente em Roma. Os(as) que trabalham pela reforma da igreja católica são considerados(as) ‘personae non gratae’. Reina um espírito de prepotência, fechamento e mesmo cinismo, como afirmou recentemente o escritor Saramago. Todos e todas que ousam apresentar uma sugestão que não é do agrado das autoridades do Vaticano sentem isso na pele. Como nos tempos de Lutero, necessitamos atualmente de uma reforma protestante a sacudir a igreja católica pela força do espírito evangélico. Temos de protestar, fazer ouvir nossa discordância dos desmandos praticados pelo Papa e pelas autoridades do Vaticano. 

Meus comentários.

Um dos 20 livros escritos por E.Hoornaert é A MEMORIA DO POVO CRISTÃO que coloco no inicio do meu blog como um dos meus "livros fontes".


No início, Lutero quis acabar com a venda das indulgências mas os burocratas curiais não queriam perder seus lucros. Hoje a troca não é por dinheiro mas para conquistar participantes presenciais em grandes eventos,como  foi a Indulgência Plenária para os presentes na última JMJ (jornada mundial da juventude em Madri -  a próxima em 2013 será no Rio). Consta que em todos esses eventos há indulgência plenária para os presentes.Ivone Gebara,a teóloga criticou duramente o perdão e a Indulgência plenária para as mulheres que tivessem abortado mas estivessem presentes na visita papal a Madri. Aliás foi demais criticado o custo dessa viagem do Papa para a JMJ, por ter sido bancado em boa parte pelo governo com o dinheiro dos impostos e por grandes empresas que praticam grandes injustiças sociais. E no Brasil quem irá bancar a comitiva papal? Proximamente vou abordar esse tema aqui.


Hoornaert se refere à "pastoral do medo". Não só a pastoral mas o clima geral interno é de medo.Em artigo publicado pelo IHU em maio de 2011 o excelente teólogo Pablo Richard escreve: "Temos uma Igreja do medo:os leigos tem medo dos padres, os padres tem medo dos bispos, os bispos tem medo da curia romana e a curia tem medo da Teologia da Libertação".


Um dos capítulos mais tristes da história da gestão vaticana é a perseguição contra os que manifestam divergência ao que ela considera ortodoxia.São os que Hoornaert qualifica como "pessoas não aceitas" para a curia.Cita a crítica do ateu Saramago. O teólogo jesuita José Inácio Fauz  escreveu: " meio intempestivamente eu disse certa vez, que a curia romana havia feito mais ateus que Marx,Freud e Nietzsche juntos ".E não é para menos. Ele mesmo em outro artigo intitulado "A Igreja e o medo à critica" escreve:" O mais urgente é uma profunda reforma da curia romana e para isso os membros da curia deixem de ser bispos (cumprindo o Concilio de Calcedonia que dizia que ninguém devia ser consagrado bispo sem uma igreja) e desse modo deixe de ser uma plataforma que favoreça o carreirismo, a busca de honras humanas vestidas religiosamente."


Mas voltando à perseguição dos dissidentes ou inconformados, uma das ações mais frequentes é proibir de lecionar em universidades católicas perdendo o emprego, ou impedir a publicação de livros ou dificultá-la. Uma enorme lista de teólogos progressistas sofreram esses e outros vexames claramente contra os direitos humanos. Até bispos! Casos emblemáticos dessa perseguição foi primeiro com o bispo de Evreux, na França, Jackes Gaillot anos atrás, removido sem mais para uma diocese sem nenhum cristão em Parmenia na desértica Etiópia. Outro semelhante, recentemente, com o bispo Bill Morris de Toowomba, na Austrália. O papa o exonerou de sua diocese só porque em uma carta pastoral ele se mostrou aberto à ordenação de mulheres e de homens casados.Dois relatórios de peritos independentes sobre esse caso,concluem que o papa violou o direito canônico da igreja católica e agiu contra a própria justiça natural.Esse é um dos desmandos praticados pelo papa a que se refere Hoornaert.Outro foi a beatificação do seu antecessor João Paulo II.Foi criticadíssima e com o peso de um dos maiores teólogos atuais, senão o maior, o suiço Hans Kung.A forma como foi feita provou que há critérios políticos nesses processos de canonização.


O cardeal Kasper disse há pouco numa entrevista (IHU de 14 fevereiro) que há um clima de trabalho  (na curia) que não vai bem...há um estilo maldoso...não em todos, muitos trabalham pela Igreja.


Pelos títulos de alguns artigos e reportagens só deste ano  de 2012, publicados  pelo excelente site do IHU Online você pode avaliar a confusão reinante:
O Vaticano das lavadeiras.
Uma fé enfraquecida no palácio das intrigas.
Intrigas sagradas.
Os lobos ao redor do papa.
Vaticano investiga complô contra o papa.
Áustria:apreensão do Vaticano diante da rebelião dos párocos.
Apoio na França aos párocos austríacos desobedientes.
O papa teme um cisma progressista na Igreja.


O tal cisma a que se refere o último título é de 400 padres austríacos que publicaram um manifesto "apelo à desobediência", liderados pelo padre Helmut Schüller, rotulado por isso, como " o Lutero austríaco". A Irlanda também apoiou esses indignados, fala-se em 600 padres. Ramificações na Alemanha, França, Eslováquia, com simpatizantes na América latina, EEUU. e Austrália.
Dei até aqui, uma rápida  panorâmica do que está acontecendo na  cúpula da Igreja.Muito mais você pode encontrar no site da IHU online.


Coloquei esses complementos ao artigo do Hoornaert para reforçar a sua tese de que, de fato, urge uma reforma "a la Lutero" na cúpula da Igreja  Católica Apostólica Romana.




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sair da religião? (p 88)

O sitio IHU Online divulgou em agosto de 2010 uma reportagem publicada na revista Témoignage Chrétien,(francesa) sobre o livro "La sortie de la religion,est-ce une chance ?", isto é, A saida da religião é uma chance? Ele é fruto da participação de  muitas mãos mas fundamentalmente por cinco padres operários da região do Calvados (França).
No final de dezembro de 2009, como última postagem do ano, coloquei um texto do teólogo Louis Evely, anunciando que  Jesus veio nos libertar da Religião.
Hoje, como última postagem deste 2011, apresento um resumo da reportagem do livro dos padres operários, que também nos anuncia: "A libertação do jugo da religião, é um dos aspectos trazidos por Jesus"

Esses 5 padres durante seu serviço como padres e trabalhadores, perceberam que a mensagem de Jesus nos séculos XX e XXI se tornara inaudível.Os primeiros capítulos  do livro apresentam múltiplos testemunhos que exemplificam a deriva da Igreja que se tornou,
de humilde e a serviço da  Boa-Nova, em uma instituição humana que é chamada "religião".
O anúncio é apelo à liberdade, a religião é a constrição de uma determinada via de salvação.
Pouco a pouco na Igreja, a forma da religião encobriu a do anúncio, em vez do contrário.Desta conversão da Igreja em simples religião que transformava o convite à salvação  em injunção ameaçadora, se derivou o fato de que ela não tem mais do que, uma linguagem religiosa tecida de mandamentos, de mistério, e de simbolismos sagrados.


Ser "praticante" consiste em contribuir ao êxito e ao crescimento da humanidade e não em executar atos rituais de uma religião. "Ser cristão, dizia Bonhoeffer, significa tornar-se radicalmente humano e convidar também outros a se tornarem tais.
A libertação da religião é um dos aspectos trazidos por Jesus. É o Reino que é preciso testemunhar e a Igreja só tem sentido se, o que ela faz e diz, estiver a serviço da vida e da felicidade dos homens, abrindo-os,assim, ao verdadeiro projeto de Deus.

Estas conclusões baseadas na experiência de homens de fé empenhados no mundo operário, se dirigem também a todos aqueles que querem viver intensamente sua fé,seja qual for o contexto em que vivem: "Sim, nós cremos que não haja outro lugar para encontrar Deus a não ser a humanidade".
"A essência da mensagem evangélica é que a humanidade se realize plenamente...passou-se o tempo em que se podia dizer tudo aos homens com palavras teológicas e piedosas...Estamos caminhando para uma época totalmente sem religião" (Joseph Moingt, Dieu qui vient à l´homme).                                                                                                                                 "O cristianismo é a religião da saída da religião", escreve com certo humorismo, mas seriamente, Marcel Gauchet.

"Nesse livro,pois, alguns padres operários explicam como a Igreja, tornando-se uma religião no decurso dos séculos,se apropriou, desnaturando-a, da mensagem de Jesus Cristo,tornando-a, por isso, inútil àqueles que buscam Deus em verdade." 

Desejo aos leitores um 2012 na busca da verdade e na prática da solidariedade.


Voltarei a postar na segunda quinzena de fevereiro de 2012

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Onde está a verdadeira crise da Igreja, cont. (p 87)

Segue o último comentário meu ao artigo já postado aquí do Leonardo Boff 

4º Comentário
Ainda no primeiro parágrafo do seu artigo, Boff escreve:" Atualmente, ela (a Igreja) comparece como defasada da cultura contemporânea e em forte contradição com o sonho de Jesus..." Outros escritores tem dado o mesmo diagnóstico. O teólogo José Castillo vai mais longe, em artigo que publiquei neste blog: " A Igreja institucional está inadata  na sociedade e na cultura atual.
O cristianismo precisa se apresentar em perfeita coerência com a maneira de pensar e com a forma de viver da grande maioria das pessoas do nosso tempo".

Mas,esquecido,quem sabe, do que escreveu, o próprio Castillo declara no artigo Evangelho e Religião:" ...a religião é um fato cultural ao passo que o Evangelho é um fato contracultural. O fato religioso...é sempre um fato que nasce dentro de uma cultura e sempre está marcado por essa cultura...Pelo contrário, o Evangelho é sempre um movimento que interpela os ouvintes da Palavra (que é Jesus) a confrontar-se com não poucos elementos próprios da cultura, como são por exemplo, o exercício do poder, as leis sobre a propriedade dos bens,os privilégios dos notáveis, o uso do dinheiro, as relações de parentesco, etc."

Afinal, a Igreja deve ou não deve se adatar à cultura contemporânea ?? As expressões acima sugerem as duas posições. Reina ambiguidade.Não sei como cada um desses dois autores explicaria essas aparentes contradições. Mas o que eu sei é que para mim, o conceito de " Igreja sociedade de contraste"que o biblista Gerhard Lohfink desenvolve (ver FONTES na coluna da direita) a partir da Bíblia,  responde plenamente à questão de "a igreja se adatar ou não", e é de uma coerência e de uma propriedade que  não me deixam dúvidas.

Como já abordei esse conceito do Lohfink neste blog em 2010, ( 4 de novembro nº p 56) vou apenas relembrá-lo resumidamente para que você mesmo depois julgue se a Igreja deve se adatar ou não.

No projeto de salvação,segundo a Bíblia, Deus escolheu um povo para , com seu modo exemplar de viver de acordo com a vontade de Deus, irradiar uma tal atração junto aos outros povos, que estes buscariam  Israel ("peregrinação das nações") para poder imitá-lo e assim interromper seus passos rumo à perdição. Obviamente a vivência de Israel teria que ser muito diferente das outras nações que praticavam o mal, isto é, teria que ser uma "sociedade de contraste com os povos restantes". Israel falhou nesta sua missão. Mas Jesus preparou os discípulos para darem continuidade a esse plano de salvação. Assim, as comunidades neo-testamentárias se compreenderam como continuidade da missão de Israel e como contrastantes com o mundo pagão à sua volta, que era principalmente a cultura greco-romana.

De fato, as pequenas comunidades cristãs dos primeiros séculos irradiavam tal fascínio com seu modo de viver - vede como se amam! - que convertiam só pelo seu exemplo, milhares de pessoas que viviam em culturas com valores opostos aos valores cristãos. A cultura greco-romana chegou a ser penetrada de tal forma pelos valores cristãos que os imperadores Constantino e Teodósio capitularam diante do fermento renovador do Evangelho e fizeram as pazes com a Igreja. Isso tudo porque a sociedade cristã era reconhecidamente, visível e palpavelmente uma sociedade alternativa, de contraste com o mundo restante. 
Mas de lá para cá, aos poucos deixou-se penetrar por valores pagãos, riquezas, poder etc., deixou de preservar sua fisionomia, foi perdendo seus contornos, se adatando sempre mais à sociedade restante, sua luz se apagando, seu sal tornou-se insosso e assim não pode e não transforma mais  o resto da sociedade.  Exatamente porque a Igreja não existe para si mesma, mas única e exclusivamente para o mundo, ela não pode tornar-se mundo, mas deve preservar sua própria fisionomia.

Mas será que Boff e Castillo aos dizerem que a igreja está "defasada da cultura  contemporânea" (Boff), ou "inadatada na sociedade e na cultura atual" (Castillo), entendem que a Igreja está sendo uma verdadeira  sociedade de contraste ? Não parece: o Boff declara "que está em forte contradição com o sonho de Jesus". E o Castillo:"O Evangelho vem de Jesus Cristo.A religião não vem de Jesus Cristo ...no cristianismo, a presença da religião é mais forte e mais determinante que o Evangelho, que teria que ser a força de contestação e transformação da nossa cultura do Ocidente, que é, até hoje a cultura dominante num mundo sobrecarregado de desigualdades, injustiças e violências."

Então, a Igreja deve ou não adatar-se à cultura contemporânea? Eu já decidí. Agora, com a palavra, você leitor.                     

sábado, 17 de dezembro de 2011

Onde está a verdadeira crise da Igreja, cont. (p 86)

Contiuam os comentários ao artigo do Boff.

3º comentário
Boff escreve em seu artigo que a crise concerne à Igreja institucional mas não à Igreja como comunidade de fieis.Esta continua viva apesar da crise, se organizando de forma comunitária e não piramidal como a igreja da Tradição.
Suspeito que essa é uma visão por demais otimista.Depois de ler o que vem a seguir, você me dirá se também as bases da pirâmide católica, estão ou não em crise.

Num precioso opúsculo intitulado  ECLESIOGÊNESE (Vozes 1977) de autoria do próprio Boff, este, junto com o sociólogo Pedro Demo, mostram em várias páginas, que as bases podem e devem ser fermento renovador da instituição. Demo analisa a contraposição comunidade X sociedade (instituição)e diz que "a comunidade é a utopia da sociedade" e que "Uma organização maior, pode ser renovada pela comunidade mas não pode ser transformada em uma comunidade". Boff acrescenta "Pode haver uma verdadeira renovação dos quadros institucionais da igreja,vindos dos impulsos das bases comunitárias sem que a igreja perca sua identidade..."
Concluo: se pode haver renovação da instituição eclesiástica em crise, mas isso não está ocorrendo, significa que as bases comunitárias não estão emitindo impulsos renovadores, nem sendo um bom e eficaz fermento. Está portanto também, em  crise. 
   
Mas para que aconteça essa renovação, continua o Boff, " o espírito comunitário precisa  revitalizar-se continuamente; tal tarefa será facilitada se os grupos se mantiverem relativamente pequenos e não se deixarem absorver pela institucionalidade". E ainda: " A comunidade eclesial de base se quiser manter o espírito comunitário, não deverá querer substituir a paróquia;deverá conservar-se pequena para evitar a burocratização e facilitar o face a face dos membros..." 
Descubro uma pequena contradição entre o que o Boff fala aqui sobre a conveniência das comunidades serem pequenas e o que ele escreve no artigo quando coloca como um sintoma da crise, um mal, o fato de a igreja ficar "cada vez mais irrelevante e esvaziada de fieis", o que acho bom em termos. A hierarquia tem muita preocupação com quantidade, não quer perder fieis, porque menos povo, menos poder e perder poder é o que menos quer.É bom que a catolicidade se esvazie e fique só com os "convertidos," os que fazem uma adesão consciente pelo Evangelho.

É sabido e reconhecido que o modelo paroquial não facilita o comunitário. Precisa ser substituido.No Brasil, a CNBB propõe o modelo "Paróquia, Comunidade de comunidades". 
Poucas são as paróquias que o adotaram. Exige alterações estruturais incômodas. E além disso,o individualismo dos movimentos de renovação carismática como a Canção Nova, e outros, do tipo "padre Marcelo",  avançam sobre o fragil espírito comunitário das paróquias e o corroem.

 Analisei essa situação, neste blog, em várias postagens intituladas:"Manipulação das CEBs" e "Parece um tabu.Será?" Você as encontra na coluna do lado direito da página, depois da lista de MARCADORES, na lista ARQUIVO DE POSTAGENS nas datas, 19/9 que é o post nºp11 até 22/11 que é o post nº p20, todos do ano 2009, por isso do final da lista (os mais antigos).

Essa situação não é só do Brasil. Embora experiências animadoras despontem são muito poucas, se comparadas ao panorama geral.

Na semana próxima, mais alguns comentários.

                         

sábado, 10 de dezembro de 2011

Onde está a verdadeira crise da Igreja, cont. (p 85)

Seguem os comentários que me propus fazer ao artigo do Leonardo Boff
postado aqui, na semana passada.

1º comentário.
Desconfio que não são poucos os fieis que desconhecem a existência de uma profunda crise na católica-romana de hoje.
A maioria dos grandes problemas fervilham principalmente nos estratos superiores da pirâmide clerical - bispos,núncios,cardeais,curia vaticana,papa.
Pouco transparece para os da base - baixo clero e fieis - e o que chega vem filtrado, amenizado para não escandalizar e não afugentar.
Se você quiser se certificar da dimensão atual dessa crise, dou uma dica: abra na internet a página do IHU ( http://www.ihu.unisinos.br/ ) na janelinha BUSCA  digite  crise na Igreja; surgirão muitos textos concernentes. Ou na página da 
Adital (http://www.adital.org.br/ ) a mesma operação.
Neste blog também abordei esse assunto nas postagens: p5 em 13/8/2009;
p6 em 18/8/2009: p8 em 27/8 e p9 em 02/09/2009


2º comentário
No primeiro parágrafo,Boff escreve:"A crise da pedofilia na Igreja romano-católica não é nada em comparação à verdadeira crise, essa sim estrutural..."
Sob outro ponto de vista, me parece que a crise da pedofilia é mais do que "nada"; é sim, "a ponta de um iceberg". Avalie por este fato:" Um bispo australiano
(Geoffrey Robinson) publicou há pouco um livro, intitulado PODER E SEXUALIDADE NA IGREJA . No 1º capítulo ele explica que a Conferência dos bispos do seu país, lhe encarregou de estudar os casos de pedofilia...Pois bem, ao avançar em seu  estudo, ele foi chegando à conclusão de que o problema não era exclusivamente a sexualidade, mas sim, principalmente o poder.
E ao entrar por esses caminhos, foi tropeçando com a oposição e as ameaças da cúria.Até que terminou apresentando sua renúncia e contando a história de sua investigação em um livro.
A instituição estava disposta a resolver um problema de moral pessoal, mas não uma raiz de poder institucional". (Divulgado pelo IHU Online)

Na semana próxima, mais alguns comentários.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Onde está a verdadeira crise da Igreja, cont. (p 84)

Você tem agora acesso à segunda e última parte do artigo do Leonardo Boff. Nas postagens subsequentes farei os comentários prometidos.

"Ora,este tipo de instituição encontra-se hoje num profundo processo de erosão. Depois de 
mais de 40 anos de continuado estudo e meditação sobre a Igreja (meu campo de especialização) suspeito que chegou o momento crucial para ela: ou corajosamente muda e assim encontra seu lugar no mundo moderno e metaboliza o processo acelerado de globalização e ai terá muito a dizer, ou se condena a ser uma seita ocidental, cada vez mais irrelevante e esvaziada de fiéis. O projeto atual de Bento XVI de "reconquista" da visibilidade da Igreja contra o mundo secular é fadado ao fracasso se não proceder a uma mudança institucional. As pessoas de hoje não aceitam mais uma Igreja autoritária e triste como se fosse ao próprio enterro. Mas estão abertas à saga de Jesus, ao seu sonho e aos valores evangélicos.

Esse crescendo na vontade de poder, imaginado ilusoriamente vindo diretamente de Cristo, impede qualquer reforma da instituição-Igreja, pois tudo nela seria divino e intocável. Realiza-se plenamente a lógica do poder, descrita por Hobbes em seu Leviatã: "o poder quer sempre mais poder, porque não se pode garantir o poder senão buscando mais e mais poder". Uma instituição-Igreja que busca assim um poder absoluto fecha as portas ao amor e se distancia dos sem-poder, dos pobres. A instituição perde o rosto humano e se faz insensível aos problemas existenciais, como da família e da sexualidade.
O Concílio Vaticano II (1965) procurou curar este desvio pelos conceitos de Povo de Deus, de comunhão e de governo colegial. Mas o intento foi abortado por João Paulo II e Bento XVI que voltaram a insistir no centralismo romano, agravando a crise.
O que um dia foi construído pode ser num outro, desconstruído. A fé cristã possui força intrínseca de nesta fase planetária encontrar uma forma institucional mais adequada ao sonho de seu Fundador e mais consentânea ao nosso tempo.

sábado, 26 de novembro de 2011

Onde está a verdadeira crise da Igreja (p 83)

Estou muito tentado a fazer alguns comentários - nem sempre totalmente favoráveis - a este ótimo artigo do nosso luminar Leonardo Boff, publicado em Julho de 2010 na agência de noticias Adital. Vou apresentá-lo dividindo em 2 partes, metade em cada semana, deixando os comentários a partir da 3ª semana. O título acima é o original,dado por ele ao texto.

A crise da pedofilia na Igreja romano-católica não é nada em comparação à 
verdadeira crise, essa sim, estrutural, crise que concerne à sua institucionalidade histórico-social. Não me refiro à Igreja como comunidade de fiéis. Esta continua viva apesar da crise, se organizando de forma comunitária e não piramidal como a Igreja da Tradição. A questão é: que tipo de instituição representa esta comunidade de fé? Como se organiza? Atualmente, ela comparece como defasada da cultura contemporânea e em forte contradição com o sonho de Jesus, percebida pelas comunidades que se acostumaram a ler os evangelhos em grupos e então a fazer a suas analises.
Dito de forma breve mas não caricata: a instituição-Igreja se sustenta sobre duas formas de poder: um secular, organizativo, jurídico e hierárquico, herdado do Império Romano e outro espiritual, assentado sobre a teologia política de Santo Agostinho acerca da Cidade de Deus que ele identifica com a instituição-Igreja. Em sua montagem concreta não é tanto o Evangelho ou a fé cristã que contam, mas estes poderes, considerados como um único "poder sagrado" (potestas sacra) também na forma de sua plenitude (plenitudo potestatis) no estilo imperial romano da monarquia absolutista. César detinha todo o poder: político, militar, jurídico e religioso. O Papa, semelhantemente detém igual poder: "ordinário, supremo, pleno, imediato e universal" (canon 331), atributos só cabíveis a Deus. O Papa institucionalmente é um César batizado.

Esse poder que estrutura a instituição-Igreja foi se constituindo a partir do ano 325 com Imperador Constantino e oficialmente instaurado em 392 quando Teodósio, o Grande (+395) impôs o cristianismo como a única religião de Estado. A instituição-Igreja assumiu esse poder com todos os títulos, honrarias e hábitos palacianos que perduram até os dias de hoje no estilo de vida dos bispos, cardeais e papas.

Esse poder ganhou, com o tempo, formas cada vez mais totalitárias e até tirânicas, especialmente a partir do Papa Gregório VII que em 1075 se auto proclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo. Radicalizando, Inocêncio III (+1216) se apresentou não apenas como sucessor de Pedro mas como representante de Cristo. Seu sucessor, Inocêncio IV(+1254), deu o último passo e se anunciou como representante de Deus e por isso senhor universal da Terra que podia distribuir porções dela a quem quisesse, como depois foi feito aos reis de Espanha e Portugal no século XVI. Só faltava proclamar Papa infalível, o que ocorreu sob Pio IX em 1870. O circulo se fechou.

Na próxima semana a parte final deste artigo.

sábado, 19 de novembro de 2011

E se ficarmos sem sacerdotes? (p 82)

No final da postagem anterior você conferiu que o teólogo Castillo escrevia: " Já são muitas as comunidades que, por todo o mundo, pela falta de clérigos, são os leigos que celebram sozinhos a eucaristia." Você pode conhecer agora, uma delas na Bélgica. A reportagem é divulgada pelo sitio IHU Online.

Willy Delsaert  é um ferroviário aposentado com dislexia que praticou muito antes de enfrentar a paróquia católica suburbana Dom Bosco para celebrar os rituais da Missa Dominical com os quais ele cresceu.
A reportagem é de Doreen Carvajal, publicada no jornal The New York Times, 16-11-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
"Quem toma este pão e come", murmurou ele, quebrando uma hóstia com a sua esposa ao seu lado, "declara o desejo de um mundo novo".
Com essas palavras, Delsaert, 60 anos, e seus amigos paroquianos, discretamente, estão sendo os pioneiros de um movimento de base que desafia séculos de doutrina da Igreja Católica Romana acerca do culto divino e da distribuição da comunhão sem um sacerdote.
Dom Bosco é uma das cerca de dez igrejas católicas alternativas que surgiram e cresceram nos últimos dois anos nas regiões de língua holandesa da Bélgica e da Holanda. Elas são uma reação inquietante a uma combinação de forças: uma escassez de padres, o fechamento de igrejas, a insatisfação com as nomeações do Vaticano de bispos conservadores e, mais recentemente, a consternação diante do encobrimento de abusos sexuais cometidos por padres.
As igrejas são chamadas de ecclesias, palavra derivada do verbo grego para "convocação". Cinco delas começaram no ano passado na Holanda por católicos que se afastaram de suas paróquias existentes, e outras estão sendo planejadas, disse Franck Ploum, que ajudou a iniciar uma ecclesia em janeiro, em Breda, na Holanda, e está organizando uma conferência em rede para os grupos dos dois países.
Nestas igrejas do sudoeste de Bruxelas, os homens e mulheres são treinados como "condutores". Eles presidem missas e os marcos da vida: casamentos e batismos, funerais e ritos finais. Os membros da Igreja assumiram-na há mais de um ano, quando o seu pároco se aposentou, sem deixar um sucessor. Na Bélgica, cerca de dois terços do clero tem mais de 55 anos, e um terço tem mais de 65 anos.
"Estamos resistindo um pouco como Gandhi", disse Johan Veys, ex-padre casado que realiza batismos e recrutas os recém chegados para outras tarefas na paróquia de Dom Bosco. "Nossa intenção não é criticar, mas viver corretamente. Nós pressionamos quietamente, sem muito barulho. É importante ter uma comunidade onde as pessoas se sintam em casa e possam encontrar paz e inspiração".
No entanto, eles parecem estar em rota de colisão com o Vaticano e a Igreja Católica da Bélgica. A Igreja belga foi surpreendida por um escândalo de abusos sexuais com 475 vítimas, e pela renúncia do bispo de Bruges, Roger Vangheluwe, que em abril passado admitiu ter molestado de um menino durante anos, que depois se descobriu ser seu sobrinho.
Na visão de Roma, apenas padres ordenados podem celebrar missa ou presidir a grande maioria dos sacramentos, como o batismo e o casamento. "Se há pessoas ou grupos que não observam essas normas, os bispos competentes – que sabem o que realmente acontece – têm que ver como intervir e explicar o que está em ordem e o que está fora de ordem, se alguém pertence à Igreja Católica" disse o Pe. Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa do Vaticano.
"Práticas inaceitáveis"
O primaz da Bélgica, o arcebispo André-Joseph Léonard, de Malines-Bruxelas, já levantou objeções aos serviços alternativos, chamando-os de "práticas inaceitáveis". Mas se recusou a responder às perguntas, mantendo o compromisso de manter silêncio até dezembro. Ele foi envolvido em uma polêmica neste mês depois de ter criticado o julgamento civil de sacerdotes idosos por atos de pedofilia como uma "vingança" e ter descrito a Aids como "uma espécie de justiça inerente" para atos homossexuais promíscuos.
Para alguns católicos do movimento das ecclesias e acadêmicos da Universidade Católica de Louvain, Dom Léonard representa uma Igreja remota desconectada de um rebanho que anseia por rituais mais relevantes e participação ativa.
"Alguma coisa está começando a rachar", disse o Pe. Gabriel Ringlet, ex-vice-reitor da Universidade Católica de Louvain, que está pensando em abandonar o termo "Católica" de seu nome. "Acho que a Igreja Católica belga está começando a sentir algo de excepcional, pela primeira vez em 40 anos. Muitos católicos estão acordando e se manifestando".
Em Bruges, cidade no centro do escândalo da pedofilia da Igreja, um grupo católico alternativo chamado De Lier aborda os escândalos da Igreja em seus serviços semanais. De Lier – A Lira, em holandês – realiza cultos semanais em uma capela escolar com uma rotação de dois homens, duas mulheres e um padre. Nos serviços recentes, os membros da igreja leram trechos de um relatório de uma comissão da Igreja belga que examinou o estado das vítimas de abusos sexuais de menores. Eles manifestaram a vergonha de uma Igreja que silenciou as denúncias de abuso sexual e que usou uma linguagem advocatícia para evitar pedir desculpas.
Eles também simplificaram e personalizaram os rituais, enfatizando a importância da comunidade. Normalmente, eles se reúnem em torno de uma mesa com taças de cerâmica para o vinho e um pão redondo, e os membros são convidados a contar a história de suas alegrias e tristezas da semana anterior.
"Estamos procurando formas de viver a fé de uma forma moderna", disse Karel Ceule, membro do Lier. "Se você olhar para a crise atual com o arcebispo Léonard, ele é um símbolo de uma Igreja velha e conservadora. Em Flandres, isso não funciona mais. Chegamos a uma fase da história em que não aceitamos que o padre tenha que ser o intermediário. Queremos nos encarregar dos batismos e da comunhão".
Alguns bispos na Holanda e na Bélgica estiveram discretamente coletando informações sobre as Igrejas alternativas e reunindo-se com alguns dos seus membros. Pedro Rossel, porta-voz de Jozef De Kesel, o novo bispo de Bruges, disse que o prelado tinha conhecimento dos grupos, mas não os visitaria em breve. "Agora, ele tem outras prioridades. Ele tem muitos problemas com a questão dos abusos sexuais", disse Rossel.
Enquanto isso, membros desses grupos dizem que não guardam segredo do que estão fazendo, especialmente se acontecerem mudanças por causa da falta de padres. "Se você perguntar para a diocese oficialmente sobre isso, eles vão lhe dizer que você não pode fazer isso", disse Bart Vanvolsem, membro da paróquia Dom Bosco. "Eles dizem que se não há padre, não há missa. Mas Cristo está aqui".
Nos estágios iniciais da Dom Bosco, algumas pessoas reclamaram que os serviços demoravam muito. Outros se incomodavam com a intimidade da reunião ao redor de uma longa mesa de madeira. Alguns membros não queriam liderar um culto. "Eu ainda sou muito tradicional para fazer isso", disse Barbara Birkhölzer-Klein. "O que está acontecendo aqui é totalmente natural, mas eu ainda não posso fazer isso".
Delsaert não tinha esses receios. Ele vestia uma estola com as cores do arco-íris e trazia suas anotações. "É a segunda vez", disse ele. "Para mim, é muito intenso. Ler é muito difícil para mim, porque eu tenho dislexia".
Quase 150 pessoas se reuniram ao seu redor para um encontro organizado por membros adolescentes que escolheram o tema da paz e da música de John Lennon e de Paul McCartney.
Delsaert fez um sermão simples que remontou aos seus anos como ferroviário, exortando os paroquianos a promover a paz, conversando com as pessoas em suas vidas diárias. Ao dizer "oi" para um usuário diário dos trens, disse Delsaert, "esse homem se abriu para conversar sobre os atrasos dos trens". "Ele parecia muito mais feliz", contou.
Durante o serviço, os adolescentes ficaram ao redor da mesa, enquanto uma declaração paroquial foi lida em voz alta: "Lamentamos a dor causada pelos padres e pelos responsáveis da Igreja. Lamentamos os danos às vítimas, à comunidade e à nossa Igreja".
Depois, uma moça acendeu uma vela com as cores do arco-íris no centro da mesa. A trêmula chama foi acesa em memória às 475 vítimas belgas de abuso sexual.

Os grifos do texto são meus porque salientei a importâcia que o grupo coloca na vivência comunitária, o que é fundamental.
Na  Austria também, o mesmo IHU Online  (9/11/11) informa numa reportagem, que se introduz assim: leigos católicos austríacos vão começar a celebrar Missa, quando não houver um sacerdote.

sábado, 12 de novembro de 2011

E se ficarmos sem sacerdotes ? cont. (p81)

Está aqui a segunda e última parte do esplêndido artigo do teólogo Castillo.

"Além disso, em todo o Novo Testamento jamais se fala de “sacerdotes” na Igreja. Mais, está bem demonstrado que os autores do Novo Testamento, desde São Paulo até o Apocalipse, evitam cuidadosamente aplicar a palavra ou o conceito de “sacerdotes” aos que presidiam nas comunidades que iam se formando. Esta situação se manteve até o século III. Ou seja, a Igreja viveu durante quase 200 anos sem sacerdotes. A comunidade celebrava a Eucaristia, mas nunca se diz que fosse presidida por um “sacerdote”. Nas comunidades cristãs havia responsáveis ou encarregados de diversas tarefas, mas não eram considerados homens “sagrados” ou “consagrados”. No século III, Tertuliano informa que qualquer cristão presidia a Eucaristia (“De exhort. cast. VII, 3).
O que aconteceria se acabassem os sacerdotes na Igreja? Simplesmente que a Igreja recuperaria, na prática, o modelo original que Jesus quis. O que aconteceria, portanto, é que a Igreja seria mais autêntica. Seria uma Igreja mais presente no povo e entre os cidadãos. Uma Igreja sem clero, sem funcionários, sem dignidades que dividem e separam. Só assim retomaríamos o caminho que seguiu o movimento de Jesus: um movimento profético, carismático, secular. O clericalismo, os homens sagrados e os consagrados afastaram a Igreja do Evangelho e do povo. Assim o vêem e o dizem as pessoas. A Igreja pensou que, tendo um clero abundante e com prestígio, seria uma Igreja forte, com influência na cultura e na sociedade. Mas remeto aos fatos. Esse modelo de Igreja está se esgotando. Não podemos ignorar todo o bem que os sacerdotes e os religiosos fizeram. E que continuam a fazer. Mas também não podemos esquecer os escândalos e violências que na Igreja se viveram e dos quais o clero, em grande medida, foi responsável.
Mas, o pior não é nada disso. O mais negativo que deu de si o modelo clerical da Igreja é que aqueles que tiveram o “poder sagrado” se erigiram nos responsáveis e, das “comunidades de crentes”, fizeram “súditos obedientes”. A Igreja se partiu, se dividiu, uns poucos mandando e os demais obedecendo. Na Igreja deve haver, como em toda instituição humana, pessoas encarregadas da gestão dos assuntos, da coordenação, do ensino da mensagem de Jesus... Mas, de duas uma: ou Jesus viveu equivocado ou quem está equivocado somos nós. Evidentemente, o final do clero não se pode improvisar. Provavelmente, a mudança vai se produzir, não por decisões que venham de Roma, mas porque a vida e o giro que a história tomou vão nos levar a isso: a uma Igreja composta por comunidades de fiéis, conscientes de sua responsabilidade, unidos aos seus bispos (presididos pelo bispo de Roma), respeitando os diversos povos, nações e culturas. E preocupados sobretudo em tornar visível e patente a memória de Jesus. Já são muitas as comunidades que, por todo o mundo, pela falta de clérigos, são os leigos que celebram sozinhos a Eucaristia. Porque são muitos os cristãos que estão persuadidos de que a celebração da Eucaristia não é um privilégio dos sacerdotes, mas um direito da comunidade. O processo está em marcha. E minha convicção é que ninguém vai detê-lo.
Termino afirmando que, se digo estas coisas, não é porque pouco me importa a Igreja ou porque não a queira ver nem pintada. Pelo contrário. Precisamente porque lhe devo tanto e me importa tanto, por isso, o que mais desejo é que seja fiel a Jesus e ao Evangelho".

Os destaques como "negritos" e outros são meus. O que não está no plano deste artigo, é explicar como começou nas comunidades cristãs esse negócio do sacerdócio. Se você quer saber isso mais a fundo, veja neste blog as postagens de 2010, de 10 de Julho em diante, com os números p45 ao p49. Nelas, as informações referentes ao nascimento do sacerdócio são tiradas do livro do jesuita Alberto Parra cujo título é MINISTÉRIOS NA IGREJA DOS POBRES, da editora VOZES. Esse livro faz parte da Coleção Teologia da Libertação que tinha um Comitê de Patrocínio de centenas de bispos de toda a América Latina que apoiavam a coleção mas não necessariamente as ideias dos autores. Todavia, acredite se quiser, alguém que trabalhou nessas edições (década de 90)  me disse que foi o livro dessa coleção que teve mais dificuldade em ser aceito e aprovado pela "Comissão de Patrocínio" de bispos.E com restrições.
Era demais subversivo para o sistema eclesiástico.

sábado, 5 de novembro de 2011

E se ficarmos sem sacerdotes? (p80)

Trago mais luzes ao tema candente sobre  SACERDÓCIO, PARA QUE ?  abordado aqui recentemente. É um lúcido artigo do teólogo espanhol José Maria Castilho publicado  no seu blog e divulgado pelo IHU On Line em 25 de janeiro de 2011 cujo título indaga: O QUE ACONTECERIA SE ACABASSEM OS SACERDOTES NA IGREJA ???
Vou apresentá-lo em dois tempos.

"Na semana passada escrevi neste blog uma entrada na qual recordei como a Igreja do primeiro milênio teve um conceito da vocação sacerdotal muito diferente daquele que temos agora. Hoje se pensa que a vocação é o “chamado de Deus” para que um cristão, com a aprovação do bispo, possa ser ordenado sacerdote. Nos primeiros 10 séculos da Igreja, se pensava que a vocação era o “chamado da comunidade” para que um cristão fosse ordenado sacerdote. Mas ocorre que, nesse momento, a escassez de vocações é um fato tão notável que até os políticos cristãos-democratas da Alemanha tornaram público uma carta na qual pedem ao Episcopado que possam ser ordenados sacerdotes homens casados. Até os homens da política andam preocupados com a má situação na Igreja, entre outros motivos, pela alarmante falta de sacerdotes para atender as necessidades espirituais dos católicos.
Assim estão as coisas nesse momento. Os bispos – já o disseram os alemães – não estão dispostos a suprimir a lei do celibato. E menos ainda estariam dispostos a tomar decisões mais radicais no que se refere ao clero, especialmente pelo que diz respeito à necessidade de que a Igreja tenha sacerdotes para administrar os sacramentos. Eu não sei se os bispos vão ceder neste delicado assunto. E se cederem, quando o farão. Seja como for, me parece que chegou o momento de enfrentar esta pergunta: e se chegar o dia em que ficaremos praticamente sem sacerdotes? Seria isso a ruína total da Igreja?

O cristianismo tem sua origem em Jesus de Nazaré. Mas Jesus não foi sacerdote. Jesus foi um leigo, que viveu e ensinou sua mensagem como leigo. Jesus reuniu um grupo de discípulos e nomeou 12 apóstolos. Mas aquele grupo era composto por homens e mulheres que iam com ele de povoado em povoado (Lc 8, 1-3; Mc 15, 40-41). A morte de Jesus na cruz não foi um ritual religioso, mas a execução civil de um subversivo. Por isso, a Carta aos Hebreus diz que Cristo foi sacerdote. Mas este escrito é o mais radicalmente leigo de todo o Novo Testamento. Porque o sacerdócio de Cristo não foi “ritual”, mas “existencial”. Quer dizer, o que Cristo ofereceu, não foi um rito cerimonial em um templo, mas sua existência inteira, no trabalho, na vida com os outros e sobretudo na horrível morte que sofreu. Para os cristãos, não há mais sacerdócio que o do Cristo, que consiste em que cada um viva para os outros. Nem mais nem menos que isso. O sacerdócio cristão, assim como se vive na Igreja, não tem fundamento bíblico nenhum. Por isso, na Igreja não tem que haver homens “consagrados”. O que tem que haver são homens e mulheres “exemplares”. O “sacerdócio santo” e o “sacerdócio real” de que fala a primeira Carta de Pedro (1, 5.9) é uma mera denominação “espiritual” de todos os cristãos."

Na semana vindoura estará aqui a continuação desse texto.

sábado, 29 de outubro de 2011

Significado de Igreja como SOCIEDADE ALTERNATIVA (p 79)

Há um mês,(30/9) postei um texto explicando o SIGNIFICADO DE IGREJA-SOCIEDADE ALTERNATIVA, ou DE CONTRASTE, título deste BLOG.  Sinto que a importância do tema merecia um pouco mais de esclarecimentos. Faço-os hoje. Como no anterior, adato e resumo colocações do Gerhard Lohfink ou cito entre aspas.

No Novo Testamento, em múltiplos conceitos mas também em estruturas maiores de discurso aparece a Igreja como sociedade de contraste de Deus, no meio da sociedade restante.Por exemplo em Efésios 5,8 :"Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor." "Trevas" é metáfora para a antiga existência no paganismo;e "luz", para a atual na Igreja, pois a expressão "no Senhor", significa a vida no âmbito da soberania de Cristo e este é, na tradição linguística paulina, a Igreja. Luz ou santidade não, em primeiro lugar, do individuo cristão. Um povo inteiro deve dar testemunho do plano de Deus para o mundo.Este povo pode ser pequeno mas deve preferir ficar pequeno,uma minoria, porém
inequívoca, bem marcante e identificável, condição prévia para sua ação transformadora do mundo. Note como essa preferência para ficar pequeno remete a uma condição primordial para a existência de uma comunidade transformadora.Por que? Quanto mais numeroso o grupo tanto mais difícil manter esse contraste que o identificaria, que o marcaria como um grupo alternativo de contraste.Por isso me parece que a condição de contraste pressupõe que a comunidade seja pequena, pequenas comunidades. A maioria das nossas paróquias são chamadas de COMUNIDADES paroquiais, mas na realidade não são comunidades porque são massa, muita gente e heterogénea, não oferecem contraste com a sociedade restante, ao contrário estão dissolvidas nessa sociedade e portanto sua missão fundamental que é a transformação dessa sociedade, pouco ou nada acontece.
É inacreditável como essas paróquias resistem em se organizar em pequenas comunidades.

"Igreja como sociedade de contraste, não significa oposição à sociedade restante por causa da oposição.Igreja como sociedade de contraste significa muito menos ainda desprezo da sociedade restante a partir de um pensamento elitista.    Significa simples e unicamente o contraste em favor dos outros e por causa dos outros,isto é, aquela função de contraste, formulada de modo insuperável nas imagens do "sal da terra", da "luz do mundo" e da "cidade situada sobre uma montanha" (Mt 5,13s).Exatamente porque a Igreja não existe para si mesma, mas única e exclusivamente para o mundo, ela não pode tornar-se mundo, mas deve preservar sua própria fisionomia.
Se perder seus contornos, se sua luz se apagar, se deixar seu sal tornar-se insosso, ela não pode mais transformar a outra sociedade. Então nenhuma atividade missionária adianta mais nada; então também não adianta mais nada um engajamento social para fora por mais ativo que seja." 

sábado, 22 de outubro de 2011

A Igreja precisa do sacerdócio também de mulheres? cont. (p78)

Joguei três perguntas no fim da última postagem:essa briga é válida? O sacerdócio feminino é indispensável para a Igreja? Não é uma luta inglória essa ?

Respondo sem rodeios:é briga inválida;a Igreja não precisa de qualquer sacerdócio, nem masculino nem feminino; essa luta é de fato digna de melhor causa, uma perda de tempo e de energias.

Fico pasmo de ver tanta "gente boa", teólogos e assemelhados, exigindo o sacerdócio feminino. Mostrei detalhadamente neste blog, em postagens de agosto de 2010, em que circunstâncias o sacerdócio foi introduzido no cristianismo, se opondo claramente às intenções manifestas de Jesus. As postagens deste blog, que titulei "Religião católica (e outras) não sintonizam com o Evangelho de Jesus," iniciadas em julho de 2010, e as três postagens de fevereiro deste ano, tituladas: "Evangelho e Religião, ainda", mostram o equívoco de pleitear mulheres padres.

Justifico, resumindo o que já expus anteriormente.
Quando apresentei o artigo do incomparável e saudoso pe.José Comblin, "O que está acontecendo na Igreja," você viu a distinção que ele faz entre Evangelho e Religião, coisa que o teólogo José Maria Castillo (comentando o artigo do Comblin), reforça; mais do que só distinção é uma diferença radical ou então, dois movimentos radicalmente contrapostos. Ambos autores, dizem que sacerdócio é requisito das religiões; como Jesus não criou nenhuma religião e a única coisa para a qual Ele nos convidou, foi para segui-lo;  portanto o seguimento de Jesus e a prática do evangelho, não precisam de sacerdotes de nenhum sexo.

Sobre o modo como nasceu o sacerdócio no cristianismo, lembrei que em todo o 1º século, após o desaparecimento de Jesus, as comunidades cristãs desconheciam a função sacerdotal. Conheciam o presbítero (idoso) que tinha várias funções, mas não as típicas de um sacerdote.
Tudo começou com uma revolta da comunidade cristã de Corinto no 2º século contra seus bispos ou presbíteros (não havia quase diferença entre ambos) e como desfecho, a comunidade destituiu esses líderes.
O bispo de Roma (na época já considerado como autoridade maior) chamado Clemente, escreveu uma carta aos coríntios, admoestando-os por terem desacatado, quem? justamente presbíteros e bispos que eram, no entender de Clemente, continuação dos vários ofícios sacerdotais dos cultos do antigo Templo de Jerusalém (que nessa época até já tinha sido destruido) e que portanto os coríntios tinham se insurgido contra tradições bíblicas respeitáveis. Como Clemente era a liderança maior, sua posição teve muita influencia.Outros dois escritores e também líderes eclesiásticos influentes,Irineu bispo de Lião e Hipólito Romano, reforçaram Clemente e assim foi feito o ressurgimento de categorias e realidades sacerdotais antigas que tinham sido não só superadas mas mesmo abrogadas, invalidadas por Jesus Cristo; não tinham pois nada de respeitáveis as tais tradições, como escrevera Clemente. Eram,sim, anti-evangélicas !!!

E o que aconteceu? A redução da gama muito ampla de ministérios da Igreja atestada pelo Novo Testamento, apenas aos ministérios do episcopado, sacerdócio e diaconato. Compreensão deste tríplice ministério como graus da "hierarquia" (poder sagrado) do Velho Testamento e consequente assimilação dos bispos ao sumo-pontífice judeu, dos presbíteros aos sacerdotes do templo e dos diáconos aos levitas. Aos poucos essas funções ministeriais foram se concentrando quase exclusivamente no culto e no sacrifício (da Missa) segundo as melhores práticas dos sacerdotes antigos. Atitudes essas compreensíveis numa religião, mas não na mensagem do Evangelho de Jesus.

Para que então pleitear um equivocado sacerdócio para as mulheres?

sábado, 15 de outubro de 2011

A Igreja precisa do sacerdócio também de mulheres? cont. (p77)

Você deve ter notado,pela leitura da postagem anterior, que o Vaticano, as autoridades católicas penalizam e, às vezes, duramente, os que se atrevem não só a propor teoricamente como a se  envolver em situações de apoio ao sacerdócio das mulheres. 
Veja como justificam a intransigência:Jesus escolheu só homens "apóstolos".
Logo é de fé bíblica e a Igreja não pode mudar. O que a Igreja tem que mudar,na verdade, é seu apego injustificável à uma interpretação ao pé da letra, fundamentalista, dos textos bíblicos, tanto aqui como no sentido da
Eucaristia.

O exegeta Gerhard Lohfink, no seu livro "Como Jesus queria as comunidades",dá uma interpretação bem consistente. Primeiro ele mostra a importância do simbolismo e dos sinais nos atos de Jesus, no contexto do judaismo vigente, como parte de sua missão de reconstituir o Israel prevaricador.Afirma em seguida, que a ausência feminina quer entre os 12, quer na 
"última ceia", era devida pura e simplesmente ao fato de que os 12 representavam (simbolizavam) as 12 tribos de Israel, e tribos não podiam ser representadas por mulheres, pelo menos no Oriente daquela época.
Fora isso, Jesus integra mulheres no círculo dos seus discípulos com uma liberdade espantosa e sem consideração com as ideias misógenas do judaismo
 da época. Portanto não "cola" a capenga argumentação da hierarquia.

Outro motivo para a misoginia clerical:a chamada "Reforma Gregoriana" do sec.
XI "deu corpo" ao preconceito da inferioridade da mulher frente aos homens, como já existia no patriarcalismo e machismo do Antigo Testamento. Dizia que "as mulheres deveriam ser reconduzidas a Deus através dos homens e não o
 contrário".
O grande filósofo Aristóteles também forneceu argumentos para a igreja medieval "sentir firmeza" na sua aberração. E o maior teólogo da idade média Santo Tomás de Aquino também deu sua contribuição para a exclusão.
Diante disso tudo o teólogo norte americano e especialista no assunto,Gary
Macy, responde numa entrevista:"Temo que a compreensão de que as mulheres são inferiores,continue a existir não só na Igreja, embora não oficialmente, mas também na sociedade ocidental, de modo geral.Parte de nossa cultura de violência contra as mulheres,..." vem daí.

Mas afinal,toda essa celeuma, essa verdadeira briga para dar o sacerdócio para as mulheres é válida? A Igreja está precisando do sacerdócio feminino? Será que não é uma luta inglória, a de todos esses que enfrentam as perseguições da hierarquia católica? Aguarde a resposta na próxima postagem.

sábado, 8 de outubro de 2011

A Igreja precisa do sacerdócio também de mulheres?? (p76)

De muitos paises e com crescente insistência, tem chegado ao Vaticano, apelos que soam em síntese, assim: "Queremos o sacerdócio também para as mulheres." Mas por enquanto as cúpulas eclesiáticas estão firmes na manutenção do patriarcado como estilo de gestão e o sexo como dominação.
Mas mesmo cientes das punições por parte do Código de Direito Canônico e da hierarquia , o clamor não arrefece. Alguns se destacam nessa luta.
Roy Bourgeois, padre norte-americano da congregação Mary Knoll que já teve até uma indicação para Prêmio Nobel da Paz (por outras militâncias), demonstrava publicamente apoio ardoroso à ordenação de mulheres. Seus superiores deram 15 dias para se retratar ou seria expulso da congregação.
Wiliam Morris bispo católico da Austrália, num escrito pastoral, sugeriu como remédio para o
esvaziamento contínuo dos seminários, a ordenação de mulheres e homens casados. Foi
aposentado sumariamente pelo Vaticano, devido à sua sugestão, no entender dele. Mesmo tendo apoio de grande parte dos seus diocesanos.
Cerca de 400 padres e diáconos austríacos, através de Manifesto, apelam formalmente para a desobediência. Exigem reformas, o fim do celibato e mais da metade deles, também o sacerdócio feminino. Mais de 12 mil leigos manifestaram apoio a essa atitude de desobediência à igreja oficial.
Outros casos. O cardeal patriarca de Lisboa, declarou em entrevista: " Não há razões teológicas para excluir as mulheres do sacerdócio". Depois disso recebeu uma carta da cúria vaticana convocando-o para ir se explicar. Voltando, "amarelou".
Quando Bento 16 visitou Londres meses atrás, podia-se ler em cartazes nos ônibus urbanos:
"Papa, ordene mulheres já".
Nos EUA existe a organização "Roman Catholic Womenpriests", não reconhecida pela Igreja, que desde 2002 prepara e encaminha mulheres para serem ordenadas sacerdotisas e até bispas.
Alguns bispos católicos que se identificam com a causa, ordenam as candidatas. Trinta e cinco já se ordenaram e mais de cem se preparam. Não obstante todos estarem cientes que ipso facto, isto é, automaticamente, estão ecomungados.
O New York Times noticiou que mais de 150 padres espalhados por todo os EUA, assinaram uma declaração em que assumem a defesa de um colega, forçado a renunciar, depois de ter participado de uma cerimônia em que uma mulher foi ordenada sacerdotisa.
Durante a ocupação comunista da Checoslovaquia, bispos católicos convencidos de agir legitimamente, numa extrema emergência, ordenaram secretamente mulheres.

Esses são, como disse, apenas alguns casos mais destacados, coletados no noticiário do site IHU On line. Mas um dos primeiros e de maior significação foi o mega abaixo-assinado promovido pelo Movimento Internacional Nós somos Igreja, na década de 90, propondo reformas na Igreja, entre as quais também a ordenação de mulheres. Milhões de assinaturas foram entregues no Vaticano. Escrevi uma postagem sobre isso neste blog em 30 de julho de 2009 (p2).

Relatei tudo isso para concluir que eu também compartilho dessa opinião ???
Será??? Se você acompanhou as postagens deste blog, publicadas de 10 de junho de 2010 em diante (até 10 de agosto) já sabe o que eu penso (e não só eu) a respeito.
Se não leu e não for ler, aguarde as próximas postagens.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

SIGNIFICADO DE IGREJA-SOCIEDADE ALTERNATIVA (p75)

Você talvez já se terá perguntado:"O que significa Igreja-sociedade alternativa? Por que o blog tem esse título?" Pode até ser que você tenha procurado nas postagens anteriores alguma explicação consistente. Não tem mesmo. Falha minha! Hoje me redimo. Adio o texto prometido sobre o sacerdócio para as mulheres, e me apresso com a explicação omitida.

Muitas canções, preces e textos litúrgicos e catequéticos rotulam os batizados frequentadores das igrejas como POVO DE DEUS. Pode ter algum sentido nisso. Mas quem pode, com autoridade, precisar o sentido justo desse conceito, é o Antigo e especialmente o Novo Testamento.
Quem vai me guiar daqui para frente nos comentários, é o mesmo que me inspirou para adotar esse título para o Blog: o conceituado exegeta Gerhard Lohfink, pelo seu livro Como Jesus queria as comunidades ? A dimensão social da fé cristã, das Edições Paulinas. Vou juntar aqui vários pequenos textos dele, mas resumindo e adatando.

Na Bíblia, povo de Deus. não significa o estado de Israel; nem é a comunidade espiritual dos devotos. Povo de Deus é aquele Israel que tem consciência de ser eleito e chamado por Deus, com toda sua existência, portanto também na sua dimensão social e que segundo a vontade de Deus deve se distinguir de todas as nações.Deve ser um povo santo com uma ordem social que o distingue das outras nações; ordem social que Deus lhe concedeu e que está em nítido contraste com os outros povos. O exemplo fascinante dessa ordem social deveria atrair os outros povos a seguir-lhe o exemplo e assim se realizaria a salvação de Deus para com a humanidade transviada.

Jesus veio reconstituir e renovar esse Israel que fugia de sua missão de viver a ordem social do Reino de Deus como sociedade de contraste ou alternativa. Contraste, na época, com o modo de viver principalmente dos romanos que dominavam militarmente a Palestina. O contraste devia se dar não por maneiras exóticas, singulares ou aberrantes mas pela radicalidade em levar a sério os apelos do reino de Deus, como a prática da não violência ao extremo, ou/e a renúncia ao domínio e exploração dos outros em todas as suas formas e tudo mais que consta no paradigmático sermão do monte. A perspectiva visada era a configuração de uma NOVA SOCIEDADE, ALTERNATIVA, em nítido contraste com as sociedades do mundo de ontem e de hoje ainda marcadas pela violência, dominação, falsidade e que sei mais. O exemplo fascinante dessa nova sociedade deveria revolucionar o mundo perdido para salvá-lo.

Os discípulos de Jesus que formaram as primeiras comunidades, compreenderam o sentido da atividade renovadora de Jesus e a assumiram em continuidade, por alguns séculos. Com o edito de Milão, em 313, começou a diluição do contraste.
Hoje a Igreja como um todo, está longe,muito longe de se apresentar como SOCIEDADE ALTERNATIVA. Se você quiser saber, POR QUE? coloque nos Comentários no final deste texto e responderei.
A intenção deste blog, é ajudar um pouquinho a Igreja a voltar a ser o verdadeiro Povo de Deus, uma sociedade alternativa de contraste para salvação da humanidade.

Na semana próxima volto com o prometido tema sobre o sacerdócio para as mulheres.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

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Os que ascessarem para ler as duas ajudas prometidas no folheto POR ISTO VOCÊ
NÃO ESPERAVA, acharão os textos mais abaixo. É só ir rolando a barra de rolagem
para baixo, que eles vão aparecer vindos de baixo.
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sábado, 24 de setembro de 2011

Caricaturas sobre a imagem de Deus,cont.(p 74)

Hoje coloco o final do documento que estou resumindo.

O sofrimento verdadeiramente cristão não é aquele procurado apenas como ascese mas aquele que, como Jesus, é assumido quando é necessário por amor aos outros. É o trabalho do serviço, é por em risco a própria vida em favor da justiça, ser capazes de renunciar ao que nos pertence em favor dos pobres. Jesus não evitou o prazer normal da vida - foi considerado um comilão e um beberrão - por não praticar uma ascese artificiosa.

Enfim, uma deformação quanto à relação entre nós e Deus: trata-se de uma inversão de papéis.É Deus que toma a iniciativa amorosa de deixar-nos existir e salvar por Ele. Por isso nos é solicitado acolher essa iniciativa, colaborando com sua ação em nós e nos outros.

Todavia, sem dar-nos conta, invertemos tudo ao ponto de parecer que somos nós aqueles que tomam toda a iniciativa, como se fôssemos nós quem está interessado na salvação e devêssemos convencer Deus a interessar-se também Ele. Assim sendo, a prece transforma-se em exigência que ousa recordar a Deus as necessidades do próximo, convencê-lo a ajudar os enfermos ou as vítimas; podemos até oferecer-lhe dons e sacrifícios para que se anime; chegamos a repetir-lhe em coro que seja bom, e compassivo, que "escute e tenha piedade."
Quem reza não tem intenção de arguir Deus, mas é necessário revelar a falsa orientação e a terrível inversão de papeis entre Deus e nós (expressa em muitas orações litúrgicas ).

OBSERVAÇÃO. Acrescentei por minha conta esse parêntesis final, como gancho para explicitar algumas dessas orações "desorientadas", na parte fixa da Missa. Por exemplo:
Senhor tende piedade de nós. Senhor, escutai a nossa prece.( Será que Deus anda surdo ou não tem mostrado infinita misericórdia?)
Senhor, dai-nos a paz. (a paz, quem deve buscar, somos nós)
Orai irmãos para que o meu e vosso sacrifício seja aceito por Deus Pai todo-poderoso.
Receba o Senhor por tuas mãos este sacrifício para glória do seu nome, nosso bem e de toda Igreja. (A missa não é sacrifício nem dos homens a Deus nem de Deus aos homens. A Missa não deveria se apresentar como sacrificio pois ela é memorial da nova aliança. O que isto significa? Leia neste blog as postagens que respondem isso, a partir de 13 de fevereiro de 2010 que são as de número p27 a p41 intituladas:" a Eucaristia como não nos contaram".
Por isso o Ofertório com suas orações de apresentação das oferendas não tem razão de ser .
Na oração do "canon": todas as vezes que se reza pedindo: Lembrai-vos ( do Papa, do Bispo da diocese, dos fieis falecidos, etc. etc.) ( Será que Deus anda esquecido?)

Esses são apenas alguns exemplos. Nas orações "variaveis" da Missa as inversões se multiplicam.

Hoje termina o artigo CRER DE MODO DIVERSO que vim resumindo.
NA PRÓXIMA SEMANA vou abordar a questão candente do sacerdócio para as mulheres.

domingo, 18 de setembro de 2011

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Os que acessarem para ler as duas ajudas prometidas no folheto POR ISTO VOCÊ NÃO
ESPERAVA, acharão os textos mais abaixo. É só ir rolando a barra de rolagem para baixo,
que eles vão aparecer vindos de baixo.
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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Caricaturas sobre a imagem de Deus, cont. (p 73)

Nos dois últimos textos seguintes o autor (Andrés Queiruga) mostra algumas das principais deformações da espiritualidade ocasionadas pelas "caricaturas" que você leu até aquí.

A leitura deformada da criação e da redenção, examinada nos textos anteriores (já publicados), acabam por articular uma experiência deformada de espiritualidade. Revela-se então em primeiro plano, uma visão dualista, porque é esta que de certa forma organiza o espaço religioso. Deus lá em cima e nós aqui em baixo, o sagrado e o profano, o que se refere a Deus e o que se refere a nós, a Igreja e o mundo...marcam a fogo a vida espiritual.
Estas distinções tem certo apoio na realidade, por isso não se pode dizer que são totalmente incorretas. O engano é converter a diferença em distância, a distinção em dualismo, o apoio em imposição. Porque então Deus se transforma num senhor, e a religião consiste em serví-lo , aplacá-lo solicitar-lhe ajuda e favores para obter o seu prêmio e evitar o castigo.

Deste modo de pensar deriva espontâneamente uma visão negativa da vida. A redenção se separa da criação e se contrapõe a ela, de modo que todo o criado acaba por aparecer indiferente para a fé quando não aparece negativo e corrupto. Textos da Escritura, em si profundos e veneráveis, acabam sendo lidos em sentido oposto àquele que , na realidade, queriam expressar. Assim, por exemplo, a solicitação de se negar a si mesmo ou a perder a própria vida não pode significar a anulação da própria vida, mas exatamente o oposto: negar a nossa negação, ou seja, o que prejudica o nosso ser autêntico ou o que nos impede de realizar-nos e chegar à plenitude. Deus não quer anular o nosso ser mas levá-lo à sua afirmação literalmente infinita.

As consequências tem sido graves. Daqui nasceu uma espiritualidade inimiga do corpo e desconfiada de todo o prazer que optava pela fuga do mundo. Afirmou-se assim, um espírito de sacrifício que inconscientemente, colocava entre os fieis a ideia que Deus está contente quando nos vê sofrer, ou que concede favores em troca de nosso sofrimento gratuito ou dos nossos sacrifícios. Não se pode estranhar que se tenha chegado muitas vezes a excessos que hoje nos causam horror (certos grupos e certos santuários ainda mostram disso demasiados resquícios) e que se possa ter chegado a acusar o cristianismo de ser inimigo da vida (Nietzsche).

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Caricaturas sobre a imagem de Deus,cont.(p 72)

Eu não resumí este trecho do artigo por ser já, muito conciso e um resumo o deformaria. É a continuação do " Crer de um modo diverso" do Andrés Queiruga, divulgado pelo IHU.

"Enfim, há algo que no fundo é muito mais grave, porque abrange tudo: todo o sofrimento do mundo seria um castigo de Deus por causa de um pecado que, fora de Adão e Eva, nenhum outro cometeu; de modo que se Deus não nos castigasse - isto é, se fosse compassivo e perdoasse - viveríamos num paraíso. E depois, para perdoar-nos, teria imposto nada menos do que o sacrifício cruento de seu Filho. Enfim, se não nos comportarmos bem, nos espera o castigo eterno do inferno ( sobre o qual, com consequências deletérias, tanto insistiu a " pastoral do medo").

Este esquema se incrustou como algo de tão óbvio no imaginário religioso que nem sequer se vê agora e nem se percebe sua autêntica monstruosidade que, afortunadamente, quando é explicitada, quase ninguém a toma ao pé da letra.

No entanto, precisamente por isso, é necessário expô-lo cruamente para poder refutá-lo com todas as forças e substituí-lo com o verdadeiro, já proposto, no fundo, por santo Irineu no II século: criação na inevitável fraqueza do nascimento; apoio amoroso de Deus na historia, não obstante as nossas faltas e pecados; cume deste apoio na plenitude salvadora de Cristo; esperança de salvação plena na Glória. Vale dizer a promessa de um nascimento e a esperança de uma felicidade gloriosa.

Na semana próxima você poderá ler algumas deformações da espiritualidade que as caricaturas de Deus até agora expostas , engendram.

domingo, 4 de setembro de 2011

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Os que acessarem para ler as " duas ajudas" prometidas no folheto Por isto você não esperava, acharão os textos mais abaixo. É só ir rolando a barra de rolagem para baixo, que eles vão aparecer vindos de baixo.
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sábado, 3 de setembro de 2011

Caricaturas sobre a imagem de Deus,cont.(p 71)

Continuo resumindo o artigo "Crer de modo diverso" de Andrés Queiruga.
A partir do texto de hoje o autor aponta falsas imagens de Deus produzidas por uma leitura deformada da REDENÇÃO.

Jamais teríamos imaginado por nós mesmos a maravilha de um Deus que se faz presente na história para ajudar-nos com infinita paciência a vencer o mal e o pecado.Para isso Ele suscita sempre e por toda a parte e em todas as religiões, uma salvação. Mas por muitos séculos tem sido apresentado como unicamente preocupado por um só povo, "aquele eleito" (o povo de Israel). Os outros teriam permanecido fora de sua revelação e de sua plena salvação. De fato, a missão evangelizadora como ação pastoral da Igreja, jamais chegou e chegará para milhões de pessoas.Mas a salvação estará atuando sempre e em toda a parte.
Embora o concílio Vaticano II tenha ajudado a superar o " fora da igreja não há salvação" que durou séculos, seus efeitos ainda estão presentes especialmente na resistência a um generoso diálogo da religiões.

Ainda mais grave tem sido a visão sacrifical de todo o processo da Redenção. Interpreta-se a ação redentora de Deus por Jesus, como um preço ( um sacrifício) que Deus exigia.
O amor sem medida que Deus nos mostrou, embora lhe custasse o assassinato do seu Filho, tudo isso tem sido interpretado erroneamente, como um preço que o Pai exigia, como um castigo necessário para aplacar sua ira.

Embora possa parecer incrível, estas expressões ainda podem ser lidas - por exemplo, tomando ao pé da letra " o abandono" sobre a cruz - em importantes teólogos de nossa época.
É indispensável evitar tudo o que possa obscurecer o amor infinito do Pai.
A partir de uma perspectiva de fé, numa interpretação não fundamentalista, devemos estar seguros que Deus jamais esteve tão junto ao seu Filho como quando o puseram na cruz (não o "abandonou") e que jamais teria permitido sua morte, se tivesse sido possível evitá-la (não foi Ele que "quis" a agonia do Horto das Oliveiras).

No próximo texto Queiruga responde à inquietação: os nossos sofrimentos são um castigo de Deus por causa do pecado de Adão e Eva ? (que aliás, nem existiram realmente).

sábado, 27 de agosto de 2011

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Os que acessarem para ler as "duas ajudas" prometidas no folheto Por isto você não esperava, acharão os textos mais abaixo. É só ir rolando a barra de rolagem para baixo que eles vão aparecer vindos de baixo.
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Caricaturas sobre a imagem de Deus, cont. (p 70)

Continuo resumindo o artigo " Crer de modo diverso", do teólogo Andrés Queiruga, divulgado pelo IHU Online (Instituto Humanitas Unisinos).
No texto anterior, o autor diz que o povo pensa que se não servirmos a Deus seremos castigados. Hoje ele comenta o suposto castigo: o inferno!

As deformações que já descrevi, assumem um nível intolerável com a ideia do inferno, como castigo para aqueles que não sirvam a Deus ou não cumpram seus mandamentos. Deus que ama sem limites e perdoa sem condições, acabou sendo visto como capaz de castigar por toda eternidade e com tormentos inauditos, certas faltas, fruto da nossa fraca e limitada liberdade.
A crescente sensibilidade em nossa época, rejeita a pena de morte ou o aprisionamento cruel. Será que os homens são melhores que Deus?

Paralela à ideia do inferno é a visão do pecado. Tomás de Aquino ( um dos maiores teólogos da idade média) já dissera que o pecado não é um mal porque faz mal a Deus mas porque o faz a nós:" porque ofendemos Deus na medida em que agimos contra o nosso bem". Mas grande parte da teologia e da pregação continuam ignorando que a coisa fundamental é o interesse de Deus afim de que não estraguemos a nossa vida.
O pai do "filho pródigo" (parábola de Jesus), não se preocupa com sua honra ou sua ofensa, mas pelo fato de que "o filho estava morto e retornou à vida, estava perdido e foi reencontrado".Tudo isto, junto com a deformação moralista, fez com que na consciência de muitas pessoas, tenha crescido como um verme venenoso a ideia de que o pecado seria estupendo para nós, mas não podemos gostar dele porque Deus no-lo proibe. Em outras palavras, Deus não quereria que fôssemos felizes!

Até aqui Queiruga trata das deformações da imagem de Deus produzidas por uma leitura distorcida da Criação. Nos próximos textos, as deformações criadas por uma leitura distorcida da Redenção.