IGREJA-SOCIEDADE ALTERNATIVA

A explicação do sentido desse título, está em ARQUIVO DE POSTAGENS, out. 29 de 2011

domingo, 19 de maio de 2013

O Brasil tem um único problema.(p 114)



O Brasil tem um, somente um problema !!!                                                                   

Não se trata de um gracejo irônico.    No  BLOG DA CIDADANIA, (www.blogdacidadania.com.br) Eduardo Guimarães postou um texto (em 13/ 05/13) de sua autoria, deveras impressionante. Ele mostra com muita clareza, que todos os muitos e grandes problemas e carências da nossa nação, são decorrências de apenas UM: o INDIVIDUALISMO. Um enorme individualismo. O único problema do Brasil.

Cabe se perguntar: qual a contribuição da igreja católica – e das reformadas – na formação do povo brasileiro que forjou e está forjando  esse perfil desastroso.
O individualismo é mundial, como o capitalismo que o alimenta. O que varia é sua dosagem nos vários povos. O cristianismo – não o Evangelho – num certo momento de sua historia, desandou também rumo ao individualismo. Quem descreve como  isso aconteceu é Gerard Lohfink na "Introdução" do seu livro A IGREJA QUE JESUS QUERIA, (editora Academia Cristã). Vou destacar e resumir alguns tópicos desse texto que leva o título: A HERANÇA DO INDIVIDUALISMO, adicionando alguns comentários.  

Por volta de 1900, Adolf Von Harnack um dos mais  importantes e  influentes teólogos protestantes, publicou sua famosa obra   A ESSÊNCIA DO CRISTIANISMO. Aí ele diz: “ O Reino de Deus vem, aborda os indivíduos, instalando-se em suas almas, e eles o captam.O Reino de Deus é soberania de Deus, disso não há dúvida - mas é a soberania do santo Deus, nos corações dos indivíduos, é o próprio Deus com sua força.”  Conforme Harnack, portanto, o Reino de Deus, não vem a uma comunidade; ele vem ao individuo. Assim como o Reino de Deus não acontece numa comunidade, mas no individuo, ele também não atinge o exterior, mas o interior, o homem interior, a alma.

Mas, segundo Lohfink,  Harnack sabia, que a  Igreja primitiva, se compreendia como novo povo de Judeus e gregos, de gregos e bárbaros e via como sua tarefa mais nobre, cumprir plenamente a vontade de Deus, e assim “apresentar-se como comunidade santa”. Por mais que Harnack soubesse que a Igreja é visível, enquanto tem que se concretizar sempre em associações concretas, em última analise, para ele, ela continua sendo apenas uma comunidade espiritual, uma societas in cordibus (sociedade nos corações) que não podia ser identificada com nenhuma das igrejas concretas do seu tempo. O pior é que Harnack não está sozinho com esta imagem individualista de Igreja e de redenção. Ele representa  uma ampla corrente de teologia liberal do fim do século XIX e  começo do século XX. 

A ideia de que o Reino de Deus podia vir somente ao individuo, que ele era algo profundamente interior, e, que, por isso, a Igreja devia ser em primeiro lugar, uma sociedade espiritual, estava bem difundida na teologia protestante daquele tempo.
Há muitos indícios de que a teologia e piedade católicas participaram com muito mais intensidade no individualismo da teologia protestante, do que elas próprias imaginaram.

A posição individualista da teologia liberal, como se apresenta em Harnack – apesar de todas as correntes opostas – ainda hoje é ativa em muitas ramificações e metamorfoses, segundo Lohfink.                                        No Brasil de hoje, os Grupos de Oração, a Renovação Carismática Católica, a Canção Nova e os cultos pentecostais, são nichos produtores de individualismo religioso em franco crescimento, que reforçam o individualismo social e político do nosso sistema capitalista, fonte primeira e maior de todas as nossas "desventuras", como demonstrou Eduardo Guimarães no seu "blog da cidadania".

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Conseguirá Bergoglio fazer as requeridas reformas? (p 113)


Um dos melhores comentários, a meu ver, sobre o novo papa e a situação da Igreja que está encontrando.

“Bergoglio tem sensibilidade em relação aos pobres, mas não foi um Romero”, afirma Jon Sobrino

"Talvez a maior virtude e a maior força para levar adiante seu atual ministério papal é que Bergoglio é um homem aberto ao diálogo com os marginalizados, a partir da dor. Acompanhou decididamente os processos eclesiais nas margens da Igreja católica, e os processos que ocorrem na margem da legalidade. Dois exemplos emblemáticos são o Vicariato de padres da favela, dos bairros marginais, e o seu apoio aos padres que perambulavam sem um ministério digno", afirma Jon Sobrino.

Jon Sobrino  (Barcelona, 1938) é o quixote dos deserdados, um teólogo que retira da vida o papel da regalia para apresentá-la nua. Contudo, falar como Sobrino faz isso, com a espiritualidade de seu anti-imperialismo, irrita a muitos, sobretudo os inquisidores romanos. Num discurso tremendamente lúcido, mas politicamente incorreto, investe contra o espetáculo da eleição do novo Papa, “era chocante o emprego da suntuosidade, distanciada da simplicidade de Jesus”, disse. E, sem pelos na língua, assegura que “Bergoglio, superior dos jesuítas da Argentina nos anos de maior repressão do genocídio cívico militar, teve um distanciamento da Igreja Popular, comprometida com os pobres. Não foi um Romero”, sublinha Sobrino.

A entrevista é de
 Concha Lago, publicada no jornal espanhol Deia, 16-03-2013. A tradução é do Cepat divulgada pelo IHU.

Eis a entrevista.

Você se referiu à eleição como “folclore midiático”.

A
 Praça de São Pedro estava abarrotada de gente de todas as raças e cores, com bandeiras variadas, com rostos expectantes e sorridentes. A fachada do Templo estava adornada com calculado esmero. Também eram vistas pessoas usando capas e enfeitadas como não se vê nas ruas da vida real, em camponeses e senhoras do mercado. Imperava o folclore – em inglês, costumes populares -, mesmo que, na Praça de São Pedro, os costumes fossem mais sofisticados e esmerados do que aqueles dos povos da terrinha espanhola e dos becos de El Salvador, onde eu me encontro.

Isso é ruim?

Não, nada disto foi ruim, mas não dizia nada de importante sobre quem iria ser o novo
 Papa, a respeito das alegrias e problemas quer teria e com que cruz iria carregar... Sim, era chocante o emprego da suntuosidade, distanciada da simplicidade de Jesus. E se enxergava certa arrogância nos organizadores, como se estivessem dizendo “tudo está se saindo bem”. Quando esta expressa perfeição, além de poderio, costuma se chamar “pastoral da apoteose”.

Entretanto, nem tudo foi folclórico.

Não. Algo não foi folclórico e desde o primeiro dia. Falo da vestimenta simples do
 Papa, da pequena cruz sobre seu peito, que não contava com ouro, nem prata e nem brilhantes, a oração que, inclinando-se, pediu ao povo antes de abençoá-los. São sinais pequenos, mas claros. Tomara que cresçam como grandes sinais, que acompanham a sua missão. Ficou clara a simplicidade e a humildade.

A eleição de Bergoglio foi uma surpresa total.

Sim, para os não iniciados foi uma surpresa e uma grande novidade. O
 Papa é argentino, o primeiro pontífice desse país. E é jesuíta, o primeiro Papa dessa ordem. As duas coisas podem ser trivializadas, como ocorreu em alguns meios de comunicação. Por isso, é preciso entender bem. Messi é argentino, mas nem todos os argentinos são estrelas. Pedro Arrupe foi jesuíta, mas – e aqui falo de coisas mais sérias – nem todos nós, os jesuítas, somos como ele. Ao folclore também pertencem titulares sem muito engenho e com preguiça mental; “argentino e jesuíta”. Eles não têm outra coisa para dizer? Além disso, os momentos folclóricos e midiáticos duram pouco. Triste é mantê-los ou continuar acrescentando detalhes não transcendentes, sem tocar no fundo da questão em relação ao Papa, a Igreja, Deus e nós. Dependerá dos amos dos meios de comunicação – e dos espectadores – que o folclórico continue sendo o mais acorrido.

Nestes dias, você conversou com gente que conhece Bergoglio de perto.

Sim, eu não sou especialista na vida, trabalho, gozos e sofrimentos de Bergoglio. E para não cair em nenhuma irresponsabilidade procurei me conectar com pessoas da Argentina, que não citarei, mas, que tiveram contato direto com ele. Espero que haja compreensão pela limitação do que vou dizer, e peço desculpas se cometo algum erro.
 Bergoglio é um jesuíta que ocupou cargos importantes na Província da Argentina. Foi professor de Teologia, superior e provincial. Não é difícil falar de suas tarefas externas. Contudo, da questão mais interna só se pode falar com delicadeza e, agora, com respeito e responsabilidade. Muitos companheiros se lembram dele como uma pessoa de profundos convencimentos e temperamento, decidido lutador e sem trégua. “Se lhe fazem Papa, limpará a Cúria”, foi dito como humor.

Destacaram sua austeridade?

Também recordam de seu interesse desmedido em comunicar aos outros suas convicções sobre a
 Companhia de Jesus, interesse que poderia se converter em possessividade, até exigir lealdade em relação a sua pessoa. Muitos recordam de sua austeridade de vida, como jesuíta, arcebispo e cardeal. Uma amostra disso é a sua moradia e sua habitual andança de ônibus. Quando já bispo, muitos de seus sacerdotes se recordam de sua proximidade e como se oferecia para suprir-lhes em seu trabalho paroquial, quando necessitavam deixar a paróquia para descansarem. A austeridade de vida era acompanhada de um real interesse pelos pobres, indigentes, sindicalistas desprezados, o que o levou a defendê-los com firmeza diante de sucessivos governos. Os temas morais têm sido próximos dele, e certamente o do aborto, o que o levou a enfrentar, diretamente, o presidente do país.

Eles se recordaram de sua opção pelos pobres?

Em tudo isso se aprecia a forma dele fazer a opção pelos pobres. Não, assim, em sair ativa e arriscadamente em sua defesa, nas épocas de repressão das criminais ditaduras militares. A cumplicidade da hierarquia eclesiástica com as ditaduras é conhecida.
 Bergoglio foi superior dos jesuítas da Argentina de 1973 até 1979, anos de maior repressão do genocídio cívico militar.

Fala-se de cumplicidade?

Não parece justo falar de cumplicidade, mas parece correto dizer que naquelas circunstâncias
 Bergoglio teve um afastamento da Igreja Popular, comprometida com os pobres. Não foi um Romero - célebre por sua defesa dos direitos humanos e assassinado no exercício de seu ministério pastoral -. Não tenho conhecimentos suficientes e falo com medo de me equivocar. Bergoglio não oferecia a imagem de dom Angelleli, bispo argentino assassinado pelos militares em 1976. Muito possivelmente sim, tocava em seu coração, mas não costumava aflorar em público a lembrança de Leonidas Proaño, domJuan Gerardi, Sergio Méndez...

No entanto, ele também possui outra marcada faceta solidária.

Sim. Por outro lado, a partir de 1998, como arcebispo de Buenos Aires, acompanhou de diferentes maneiras os setores maltratados da grande cidade, e com fatos concretos. Uma testemunha ocular conta que na missa do primeiro aniversário da tragédia de
 Cromagnon – incêndio ocorrido durante uma apresentação de rock, que custou a vida de 200 jovens -, Bergoglio se fez presente e fortemente exigiu justiça para as vítimas. Por vezes, usou uma linguagem profética. Denunciou os males que trituram a carne do povo, e colocou nome: o tráfico de pessoas, o trabalho escravo, a prostituição, o narcotráfico e muitos outros. Para alguns, talvez a maior virtude e a maior força para levar adiante seu atual ministério papal é que Bergoglio é um homem aberto ao diálogo com os marginalizados, a partir da dor. Acompanhou decididamente os processos eclesiais nas margens da Igreja católica, e os processos que ocorrem na margem da legalidade. Dois exemplos emblemáticos são o Vicariato de padres da favela, dos bairros marginais, e o seu apoio aos padres que perambulavam sem um ministério digno.

O que espera ao Papa Francisco?

 Deus sabe. O novo Papa terá pensado bem o que lhe pode esperar e o que ele deverá, poderá e almejará fazer. Agora, enumeremos algumas tarefas que nós, a partir de El Salvador, consideramos importantes e que podem ser importantes para todos na Igreja. Nós também devemos realizá-las, mas o Papa tem uma maior responsabilidade e tomara que tenha mais meios. As tarefas coincidem muito com as que José Ignacio González Faus propôs recentemente.

Qual seria a mais urgente?

A primeira – eu acredito que a maior das utopias – é tornar realidade a utopia de
 João XXIII: A Igreja é especialmente a Igreja dos Pobres. Não teve êxito na aula do Vaticano II, de modo que cerca de quarenta bispos se reuniram fora da aula [conciliar] e nas Catacumbas de Santa Domitila assinaram o manifesto que se chamou “O Pacto das Catacumbas”.

Você sempre aponta a falta de sensibilidade da Igreja.

Pelo que é dito por muitos,
 Bergoglio tem sensibilidade em relação aos pobres. Tomara que tenha lucidez para tornar real a Igreja dos pobres, e que esta deixe de ser a igreja de abundância, de burgueses e ricos. Não lhe faltarão inimigos, como não faltaram, depois de Medellín, para muitos hierarcas que se colocaram os pobres no centro da Igreja. Os inimigos estavam dentro das cúrias eclesiásticas e, muito poderosamente, no mundo do dinheiro e do poder. Estes assassinaram a milhares de cristãos e cristãs.

Impossível esquecer dom Romero, mártir latino-americano.

Tomara que o Papa
 Francisco não se amedronte diante de uma igreja perseguida e mártir, como as de dom Romero e dom Gerardi. E canonizando-os ou não, oxalá os proclame mártires, concretizando-os também como os mártires pela justiça. É o melhor que temos na Igreja. É o que a faz parecida a Jesus de Nazaré. Para isso não é essencial que canonize dom Romero, embora seja um bom sinal. E se o Papa cair em alguma fraqueza humana, que seja a de estar orgulhoso de sua pátria latino-americana, sofredora e esperançosa, mártir e sempre em transe de ressurreição. E também orgulhoso de toda uma geração de bispos: Leonidas Proaño, Helder Câmara, Aloísio Lorscheider, Samuel Ruiz... Não chegaram ao papado, a maioria deles nem a cardeais, mas nós vivemos deles.

E o que você me diz dos problemas que sacodem a Igreja e que aparecem nos meios de comunicação?

A segunda das utopias é enfrentar a conhecida constelação de problemas que esperam solução no interior da
 Igreja. Por exemplo, a muito urgente reforma da Cúria Romana. Também é necessário que os membros da Cúria sejam preferentemente leigos. Mesmo assim, é importante que Roma deixe para as igrejas locais a eleição de seus pastores. Que desapareçam do entorno papal todos os símbolos de poder e de dignidade mundana e, certamente, que o sucessor de Pedro deixe de ser chefe de Estado, pois isso envergonharia Jesus. Faz falta toda a Igreja sentir como ofensa a Deus a atual separação das igrejas cristãs. É necessário pedir ao Papa de Roma que solucione a situação dos católicos que fracassaram em seu primeiro matrimônio e encontraram estabilidade na segunda união. E, é claro, que repense o celibato ministerial.

Você também não abandona outras reivindicações já clássicas.

Sim, tenho outras três questões. Por um lado, que de uma vez por todas regularizemos a situação insustentável da mulher na
 Igreja. Também que deixemos de desvalorizar, às vezes de menosprezar, o mundo indígena, os mapuches da América do Sul e a todos aqueles que o Papa for conhecendo em suas viagens pela África, Ásia e América Latina. E, é claro, que aprendamos a amar a mãe terra.

Tudo isso com um compromisso firme, que tem muito a ver com o ocorrido nestes dias.

Sim, o compromisso deveria ser que o novo
 Papa, na sacada de São Pedro, e os dois milhões de pessoas na Praça não se tornassem um grande ator, no caso do Papa, e em meros espectadores bilheteiros, no caso dos fiéis.

terça-feira, 12 de março de 2013

Um Concílio só de leigos !!! VIVA !!! (p 112)


O "site" kairosnostambemsomosigreja, em 7 de janeiro deste ano, nos alegrou com uma notícia de veras sensacional: os leigos de várias partes do mundo, sem a intromissão do clero - bispos e padres - estão preparando um Concilio só de leigos, a se realizar em Roma em 2015, comemorando os 50 anos do Concilio Vaticano II . Embora desconhecendo essa iniciativa, este blog contribuiu positivamente para as reflexões em curso, conforme a noticia abaixo, com vários posts sobre a vivencia experimental em um novo modelo de Igreja. O Projeto lançado em 2008 se consolidou de tal forma que, já se sentiu em condições de ser lançado oficialmente neste 2013. A noticia vem através de uma entrevista com uma das lideranças, François Becker.  


G. – François, bom dia!
FB – Bom dia, Gérard!
G- Você pode nos falar um pouco sobre (o Projeto)/ Concílio 50?
FB – É um Projeto que foi lançado em 2008, ao mesmo tempo pela Rede “Église et Liberté”  e pelo Movimento Internacional Somos Igreja. Este Projeto tem como objetivo proclamar, diante do mundo, a realização de uma reunião ou de uma assembléia – ainda não se tem a forma precisa -, em Roma, em 20 15, o que nós, Cristãos, essencialmente Católicos, Povo de Deus, desejamos viver, e já vivemos de forma experimental, em Igreja, abertos ao século XXI:  ”Como viver em Igreja, no mundo, no século XXI?” é o tema deste Projeto. Isto é, a partir do espírito emanado do Concílio Vaticano II, como expressar isto para viver o século XXI, o Evangelho, a mensagem de Jesus.
Para tanto, em diferentes países do mundo, começa-se a elaborar uma reflexão e um levantamento sobre o que se tem feito nas bases. Trata-se, com efeito, de algo já em curso, pois foi lançado em 2008. Então, em 2010, houve, na França, uma reflexão no âmbito de Parvis, em Lyon, que pode ser uma contribuição para essa reflexão. Houve um grande concílio na América do Norte, em Detroit, em 2011, onde se recolheu um número considerável de contribuições sobre o que poderá ser o futuro de uma Igreja para o século XXI.
Por outro lado, também outros países já lançaram uma reflexão, na América do Sul e na Europa. Nós já fizemos um bom número de reflexões, em diferentes países, e queremos retomar tal reflexão, em âmbito europeu, no decorrer de 2013 e 2014. É interessante acrescentar que a Coordenação européia das comunidades de base, na Europa, tem se associado a essa reflexão sobre uma Igreja, no mundo, para o século XXI.
Esse Projeto foi lançado oficialmente, este ano, em Roma, através de uma conferência de imprensa, cujo texto se pode encontrar no “site” “Council 50″.
(Trad. Alder Júlio F. Calado)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Um atuante núcleo do IMWAC/ KAIRÓS, em João Pessoa. (p 111)



Como você pode verificar, desde os primeiros textos deste blog, fiz referencias ao IMWAC; tem se mostrado muito ativo, coerente, e de penetração cada vez maior.Os últimos posts de 2012 se ambientam nele (menos o último).Fiquei surpreso e feliz por descobrir no final de 2012 a existência de um núcleo  do IMWAC, em João Pessoa,(Paraiba), denominado KAIRÓS, com reuniões semanais e de convivência estreita com o pe. José Comblin até sua morte.Eles também mantem um blog:
www.kairosnostambemsomosigreja.wordpress.com
tem artigos muito bons.
O relatório a seguir diz um pouco de tudo isso.

RELATÓRIO DA PARTICIPAÇÃO DO KAIRÓS-NÓS TAMBÉM SOMOS IGREJA, NO ENCONTRO DO IMWAC EM LISBOA – PORTUGAL, por APARECIDA PAES BARRETO
by kairosnostambemsomosigreja

No período de 26 a 28 de outubro de 2012, foi realizado um encontro com representantes de grupos cristãos, de treze países (Áustria, Brasil, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Irlanda, Itália, Noruega, Portugal, Suécia), integrantes da rede internacional Nós Somos Igreja.

Sobre o IMWAC    – Movimento Internacional Nós Somos Igreja
O Movimento Internacional Nós Somos Igreja (International Movement We Are Church – IMWAC) é uma rede formada por grupos de cristãos católicos, independentes e autônomos, representando culturas diferentes, e unidos no esforço para viver a mensagem de Jesus Cristo.

O Movimento Nós Somos Igreja emerge do descontentamento dos cristãos com a não concretização das inovações/mudanças recomendadas nos documentos do Concílio Vaticano II, para a Igreja Católica, bem como, da indignação ante os crescentes abusos operados pela hierarquia da Igreja no lidar com questões de ordem interna, bem como com as questões inerentes à sociedade atual.

Em 1995, por ocasião dos 35 anos do Concílio Vaticano II, um grupo de cristãos (membros fundadores da rede) reuniram mais de dois milhões de assinaturas (na Áustria, Alemanha e Tirol do Sul) em torno do Referendo “Nós Somos Igreja”, pela renovação da Igreja Católica. O documento, centrado nas intenções do Concílio Vaticano II, apontava os pontos relevantes para uma Igreja, em uma sociedade em mudança.
O Referendo de Igreja deu origem ao documento de fundação da rede que foi criada em 1996, em Roma. O Manifesto do Movimento Internacional Nos Somos Igreja (A Declaração de Roma) centra-se na necessidade de uma Igreja: 1. que valoriza a participação, 2. com todos os ministérios abertos para as mulheres e homens; 3. com o celibato opcional, 4, com os valores de sexualidade e primado da consciência, 5. que está comprometida com a justiça social e os direitos humanos; 6. que não marginalize seu próprio povo.

Os grupos locais podem ter objetivos a mais do que estes indicados na Declaração de Roma ou Manifesto, mas a cooperação internacional e colaboração está concentrada sobre eles. Desde então, o IMWAC tem participado direta ou indiretamente, de diversos eventos em torno das questões eclesiais, além do manifesto apoio aos que são penalizados pela hierarquia da Igreja.
Em linhas gerais, o IMWAC sugere mudanças na Igreja Católica inspirado no mesmo Espírito que mobilizou os trabalhos durante o Concílio Vaticano II, ou seja, o Espírito de mudança ou aggiornamento. Uma inspiração não como retrocesso mas como avanço, não como ponto de chegada, mas como ponto de partida para a construção de uma Igreja comprometida com a justiça e paz, e que coloca a solidariedade com os excluídos do mundo no centro da sua acção. Uma Igreja que afirma a criação de Deus, que age e reflete o amor incondicional de Jesus Cristo para toda a humanidade.

O KAIRÓS-NTSI e o Encontro em Lisboa
A participação do Brasil no encontro em Lisboa se deu a partir da representação do grupo Kairós-Nós Também Somos Igreja, nas pessoas de José Brendan Macdonald e Aparecida Paes Barreto.
O grupo Kairós-Nós Também Somos Igreja, é um coletivo formado por cristãos e cristãs, principalmente do Nordeste do Brasil, com perspectiva ecumênica e que se quer de caráter formativo, informático, celebrativo e atuante.
O Grupo foi iniciado em 1998, em torno de reuniões mensais na casa do teólogo Pe. José Comblin, a quem o grupo tem como principal referência em seu processo formativo sócio-eclesial. Devido ao interesse aí suscitado, e tendo em vista crescentes desafios atuais, o grupo decidiu, há vários anos, encontrar-se semanalmente, tendo como propósitos:
-discernir, debater e ajudar a enfrentar os velhos e novos desafios, seja no âmbito macro-social, seja ao interno dos caminhos e descaminhos da Igreja Católica e de outras Igrejas Cristãs;
-fortalecer e tornar mais afetivos e efetivos nossos laços organizativos, numa dimensão comunitária;
-estudar e refletir sobre livros do teólogo José Comblin, em especial os dedicados à compreensão da missão do Espírito Santo no mundo, na perspectiva da Teologia da Libertação, da qual ele é uma das primeiras referências;
-debater textos de outros teólogos e teólogas, tais como Hans Küng, Carlos Mesters, Ivone Gebara, Jon Sobrino, Leonardo Boff, Eduardo Hoornaert, Jean-Yves Leloup, Hugo Echegaray, etc.;
-intercambiar e refletir sobre relatos de nossas experiências de cidadãos e de cristãos junto às pessoas e às comunidades de distintos espaços de que participamos;
-fazer memória dos acontecimentos, numa perspectiva de mútua ajuda;
-fazer intercâmbio com pessoas e grupos de outros lugares, regiões e países, notadamente com os grupos de cristãs e cristãos empenhados na luta por mudanças libertárias na sociedade e nas igrejas;
-organizar periodicamente seminários, colóquios, fóruns de diálogo com outros sujeitos históricos.

O grupo inicia seu diálogo com a rede IMWAC desde 2009, por identificar-se com alguns dos objetivos do movimento internacional. A incorporação do Kairós-Nós Também Somos Igreja à rede IMWAC foi uma decisão coletiva e não interfere na autonomia e identidade do Grupo que movido no espírito do seguimento de Jesus, adota os pressupostos da Teologia da Libertação a qual tem no social sua grande marca.
O Kairós – Nós Também Somos Igreja, comunga dos ideais de uma Igreja que, num incessante esforço de mudança siga, na perspectiva do Evangelho e no espírito do seguimento de Jesus, a efetiva solidariedade e compromisso com a causa de libertação dos pobres, marginalizados e esquecidos, numa clara opção por um estilo sóbrio de vida, fora dos altos padrões de consumo, e de modo a testemunhar amorosidade em relação à natureza, aos humanos e a toda a comunidade de viventes, em especial os mais desprezados: as crianças, as mulheres, os jovens, os povos indígenas, os povos afrodescendentes, os camponeses...
Acredita ainda que a “Ecclesia semper reformanda” não se limita apenas a comunidade eclesial mas que cada uma, cada um de nós, é chamado a uma contínua e profunda renovação.

No dia 26/10/12 (sexta-feira)
Acolhida. Partilha de experiências. Resumo geral das atividades, com debate. Conversa informal.
Durante a partilha e de acordo com o documento do Kairós-Nós Também Somos Igreja, encaminhado ao IMWAC, alguns pontos foram socializados, a saber: - quem somos; - o que entendemos por uma Igreja em mudança; - o que vimos fazendo; - o que propomos aos demais participantes desse Encontro.

No sábado (27/10)
1. Prece na Capela;
2. Relato das atividades internacionais, passado e futuro. Sumário das atividades internacionais do passado; Coleta de sugestões para ações futuras.
3. Christian (Alemanha) fez uma retrospectiva das ações do IMWAC, enfatizando as mais marcantes entre 1995 a 2012. Apresentou-se a intenção de produção de um vídeo sobre a trajetória do IMWAC e a participação na imprensa. No debate, houve relato das experiências vividas, a exemplo das “celebrações sem padres”, ressaltada por Marleen (Holanda).
4. Como atividades específicas: Foram apresentadas e debatidas entre os presentes questões relativas ao Concílio 50 (2015) e preparação para um possível Conclave. Apresentar à imprensa, o Papa e a Igreja que queremos para o terceiro milênio.
“As pessoas querem uma igreja democrática e que viva a fé junto das outras pessoas, mesmo sem ser pelo caminho dos Bispos. O IMWAC tem que se fazer presente também ao lado do povo; tem que atuar não só na Igreja mas junto as pessoas e voltado para os problemas do mundo”.
Frei Bento havia comentado anteriormente que “o relatório do Brasil havia ficado muito bom, sucinto e completo”.
5. Findo o relato das experiências passadas, vieram as perspectivas futuras, colocando-se as metas a serem atingidas em 10 anos:
- As pessoas querem a mudança da sociedade, a mudança da democracia, e não tem nenhum interesse em sínodo de bispos.
- IMWAC deve estar presente e ao lado dos que querem mudanças.
- E promover uma Ação Urgente – em nível nacional e internacional
- Sinal do tempo. IMWAC como a sua voz!
6. Foram definidos três Grupos de Trabalho para apresentar propostas sobre as Perspectivas Futuras:
- Da delegação brasileira, José Brendan Macdonald ficou incumbido de preparar o documento "Uma Igreja comprometida para os tempos vindouros". O documento, em fase de elaboração vem sendo remetido a Pedro Freitas e aos demais membros do grupo de trabalho (Ana Vicente, Anne Helene Utgaard, Jean Pierre Schmitz, Christian Weisner e Martha Heizer) para possíveis modificações, se tidas como necessárias.
7. Palestra seguida de debate - “Shall we stay or shall we go? Letter and Spirit of 2nd Vatican Council” -, com a Dr.ª Teresa Toldy (teóloga feminista, professora de Ética na Universidade Fernando Pessoa):
- “Vamos ficar ou nos iremos? Carta e Espírito do Concílio Vaticano II”

No dia 28/10 (domingo)
1. Prece na Capela;
2. Definição da estrutura interna do IMWAC, ficando assim:
 (Presidente): Martha Heizer martha.heizer@uibk.ac.at
(Contato com a Mídia): Christian Weisner weisner@we-are-
church.org
 (Tesoureiro): Kaare Joergensen ruebnerjo@webspeed.dk
 (Secretário de Divulgação): Didier Vanhoutte dvanhoutte@club-
internet.fr, José Brendan Macdonald jobremac@gmail.com
 (Secretário de Internet): Pedro Freitas pjfreitas@gmail.com
 (Representante do projeto Conclave ) : Anthony Padovano
tpadovan@optonline.net
 (Representante do projeto Concílio 50): Vittorio vi.bel@iol.it
3. Celebração eucarística presidida por Frei Bento
4. Encerramento.

Lista de links relacionados e de interesse:
Kairós-Nós Também Somos Igreja: http://kairosnostambemsomosigreja.wordpress.com/
Teologia Nordeste: http://www.teologianordeste.net/
Instituto Humanitas Unisinos – IHU: http://www.ihu.unisinos.br/
Consciência Net: http://www.consciencia.net/
Adital: http://www.adital.com.br/site/index.asp?lang=ES
Amerindia: http://amerindiaenlared.org/
Movimento Internacional Nós Somos Igreja (International Movement We Are Church – IMWAC): http://im-wac.blogspot.pt/
Nós Somos Igreja – Portugal: http://we-are-church.org/pt/
Nós Somos Igreja – França: http://www.nsae.fr/
França: http://fhedles.fr/
Nós Somos Igreja – Itália: http://we-are-church.org/it/
Nós Somos Igreja/ Alemanha: http://www.wir-sind-kirche.de/
Nós Somos Igreja – Áustria: http://www.wir-sind-kirche.at/content/
Nós Somos Igreja – Estados Unidos: http://we-are-church.org/us/
Nós Somos Igreja – Reino Unido: http://www.wearechurch.blogspot.co.uk/
Nós Somos Igreja – Suécia: http://katolskakyrkan.110mb.com/
Nós Somos Igreja – África do Sul: http://wearechurchsa.blogspot.com.br/
Nós Somos Igreja – Irlanda: http://we-are-church-ireland.org/
Nós Somos Igreja – Noruega: http://ogsavierkirken.no/
Nós Somos Igreja – Dinamarca: http://www.veok.dk/
Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas (LCWR): https://lcwr.org/
Padres Casados (Married Priests) - http://www.marriedpriests.org/







terça-feira, 18 de dezembro de 2012

JMJ de 2013: apoteose do infantilismo católico.(p 110)


A proximidade do Natal  trás de volta o Papai Noel . Acreditar na sua existência, para quem não é mais criança,   soa um infantilismo. A fé religiosa também tem os seus infantilismos. Muitos tem uma fé infantil: a fé adulta, não é muito comum.  É o que mostra o sociólogo italiano  Marco Marzano, autor de uma investigação publicada com o nome  “Quel che resta dei cattolici: indagine sulla crisi della chiesa in Italia” (O que resta dos católicos: investigação sobre a crise da igreja na Italia). Martino Doni o entrevista e o jornaI “ Il Manifesto”  publicou. O IHU On line  divulga para nós. Como eu vejo muitas semelhanças entre o catolicismo de lá e o de cá, achei oportuno divulgar para uma reflexão de fim de ano.
Dispenso a introdução, meio longa, que em nada altera o conteúdo;  apresento sem mais, a entrevista.
Eis a entrevista.

Comecemos do método: em Quel che resta dei cattolici, encontramos um relato acurado, a partir de dentro, de muitas experiências de fé ou de crise. Com base em que critério os vários interlocutores foram escolhidos?


Eu já tinha trabalhado nesse campo na minha investigação sobre o carismatismo e a religiosidade popular, publicada há alguns anos (Cattolicesimo magico, Ed. Bompiani, 2009). Portando, digamos que eu já tinha uma pequena rede de contatos, que depois ampliei, indo para cima e para baixo pela Itália, encontrando e entrevistando centenas de pessoas, observando muitas coisas diretamente, com os meus olhos. Em suma, fiz pesquisa do modo que me agrada: estando com as pessoas, no meio delas, não partindo de sabe-se lá qual teoria ou preconceito, mas, ao contrário, fazendo ressoar a verdade daquilo que elas têm a dizer e que, infelizmente, não dizem quase nunca, porque não ousam ou porque não sabem que podem fazê-lo. Isso me apaixona muitíssimo: a possibilidade de coletar verdades inéditas. Eu acredito que esse é o sentido do nosso ofício. Enfim, não me bastavam os questionários e as pesquisas telefônicas com as quais, em geral, são estudados os fenômenos religiosos: eu queria olhar os católicos italianos na cara.

E o que dizem os diversos interlocutores de tão terrível que não ousariam repeti-lo fora de nomes de fantasia e vidros fumês?

Eles contam a pulverização dos significados, o desmoronamento de uma estrutura, a Igreja, que hoje não sei se se mantém de pé ou não, mas sei que está dividida em duas: de um lado, há a Igreja pública, aquela que ocupa a cena midiática, aquela dos bispos e do Vaticano; de outro, há as paróquias, que sofrem terrivelmente, que se esvaziam, que, quando estão cheias, também estão muitas vezes vazias de sentido e de participação real. Muitos párocos me contam isto: quando têm que celebrar um funeral ou principalmente um casamento, eles estão mal, porque sabem que se trata, em certo sentido, de uma ficção, enquanto eles celebram a eucaristia, isto é, o sacramento principal, aquele que, para eles, dá razão ao seu ser e ao da comunidade... Se pararmos para pensar, é uma experiência dilacerante: você está fazendo o que você mais acredita, e os fiéis conversam, tiram fotos, bocejam e principalmente não acreditam em uma palavra do que você está dizendo. Para alguns, isso sempre aconteceu, mas, na era da autenticidade, esse é o sinal de uma crise muito profunda.

Talvez o dado mais alarmante que emerge da investigação é justamente essa separação entre a hierarquia dos bispos e a base dos padres e dos leigos das paróquias.

Parece-me justamente que sim. Além das igrejas mais ou menos vazias, o que eu vi foi uma Igreja afônica, a das pessoas comuns; a Igreja dos bispos é iluminada até demais por todos os tipos de faróis. Hoje, para falar de Igreja, na Itália, você tem que ser um vaticanista! Os jornalistas e os políticos se iludem de que as pessoas estão lá se perguntando, como Stalin, quantas armadas o papa tem. Mas eu penso que pouco importa aos fiéis as manobras ocultas, as intrigas... Os fiéis nem sequer lêem as encíclicas! A fé hoje, aqui e em toda parte no mundo ocidental, está cada vez mais se
privatizando. Acontece isso em todas as grandes instituições: chama-se crise do espaço público. Isso também vale para a política, a educação, aquilo que antigamente se chamava de o universo dos valores...

E as duas Igrejas nunca conversam entre si?

Eu não acredito: a hierarquia não tem vontade de ouvir, e o povo dos fiéis não sabe a quem se dirigir. O drama do catolicismo parece-me o fato de que a primeira Igreja, a da hierarquia, nem sequer precisa mais do povo, isto é, da segunda Igreja. Basta-lhe a mídia. Basta-lhe que o telejornal transmita o comunicado do representante dos bispos ou que noticie o último discurso do papa. Mas isso, repito, se verifica em toda parte, não só na Igreja: a cúpula pode alegremente ignorar a base. O mais atroz da Igreja é que a base, quase sempre, não deseja nada mais do que um aceno de consenso por parte de um bispo. Eles não sabem abrir mão disso.

Como se pode explicar esse fenômeno?

É evidente que seria necessária uma reflexão teórica mais aprofundada, mas eu tenho a sensação de que está em jogo um grande desafio educacional. A Igreja na Itália expressa uma enorme dificuldade para acolher os adultos. As Igrejas se abrem para as crianças, para os idosos, mas os adultos não estão lá, e quando estão, estão mal. O leigo católico adulto ainda precisa do placet do sacerdote, isto é, se posiciona de um modo infantil diante de uma autoridade, a do padre e da verticalidade da Igreja em geral, que por si só não tem justificação, senão as que lhe são dadas pela tradição. Eu entrevistei longamente leigos de um grupo que por um tempo teria se chamado "católico-comunista": aguerridos, capazes, cheios de vitalidade e de ideias, a melhor parte de uma comunidade. Bem, eles me confessaram esperar que o bispo, antes ou depois, acolha as suas demandas. Mas eu digo: vocês não podem fazer isso sozinhos? Por que sempre precisam do bispo?

Não se consegue crescer, enfim. No fundo, tornar-se adulto significa assumir sobre si o ônus de gerir as passagens cruciais da vida: o nascimento, as relações, a morte. Com efeito, os sacramentos tradicionais marcam os ritos de passagem comuns a todas as sociedades que conhecemos. Esse infantilismo, talvez, deve ser relacionado não só à religião, mas a todos esses momentos limiares, que cada vez mais temos dificuldades para reconhecer e compreender.

Concordo. Na minha investigação sobre a morte de câncer na Itália (Scene finali, Ed. Il Mulino, 2004), eu já pude evidenciar como o paciente se entrega nas mãos do médico como uma criança. Naquela época, eu dava um grande peso ao papel do médico nesse processo. Hoje, tendo refletido a respeito, devo admitir que o paciente põe muito de si na abdicação da própria adultidade. O mesmo poderia ser dito do casamento e do funeral: ambos os momentos em que a instituição é posta em dúvida como administração, e não mais como hóspede da passagem. Ou seja, a instituição não é mais o espaço público que acolhe e apoia os recém-chegados; ao contrário, ela é a decisora última dos destinos e das vontades dos seus adeptos. No entanto, parece-me que a Igreja está mais exposta do que outras instituições a esse tipo de infantilização do fiel. Um pouco porque o catolicismo está recaindo cada vez mais em formas públicas moderníssimas na forma e pré-conciliares na substância, aquelas que seguem o triunfalismo dos eventos midiáticos, e requer por parte dos fiéis uma participação passiva, isto é, a simples obediência (e nisso reside a matriz tridentina, reacionária, desse estilo); um pouco porque os católicos, mesmo os mais vivazes, sofrem de uma estranha síndrome, que eu chamaria de obsessão pela unidade.

Em que consiste?

A obsessão pela unidade é aquela estranha doença que leva os católicos a buscar a todo o custo o consenso da cúpula, o desejo de obter a aprovação dos andares superiores, que eu leria também como a ambição não confessada de que a própria linha se torne a universal, a única. Isso, também, se pensarmos, é um comportamento muito infantil.

O teólogo protestante 
Dietrich Bonhoeffer se referia à necessidade de tornar-se adulto na fé, isto é, livre e responsável diante, por exemplo, da morte. Talvez o que falta no catolicismo italiano seja precisamente a experiência da Reforma, que, segundo alguns, obrigou os fiéis a se virarem sozinhos, sem as garantias do clero.

Certamente, o processo de privatização que descrevemos no início fala também de uma tentativa, canhestra e problemática o quanto quisermos, mas ainda em curso, de americanização do vínculo social. Isto é, também, de uma tensão "protestante" interna ao próprio catolicismo, que testemunha por sua vez a vontade que muitos têm dizer a sua opinião sobre muitas questões, de não ceder à pressão de um poder cada vez mais distante e abstrato, de ser sujeito e protagonista das próprias escolhas e das próprias decisões. Esse também é um sinal dos tempos, como mostrou o filósofo norte-americano 
Charles Taylor, na sua monumental pesquisa sobre a era secular.
Nos tempos da Reforma, ninguém podia sequer sonhar em "escolher" qualquer coisa no campo religioso (se dizia cuius regio eius religio, não?). Hoje, ao contrário, a escolha é um momento crucial, do qual – e não por acaso – as hierarquias têm um certo temor. Quanto mais liberdade tem o indivíduo, mais evidente se torna o desmoronamento da instituição que queria administrá-lo. Mas eu gostaria de encerrar com uma nota de otimismo: eu vi essa tensão, embora um pouco em contraluz, eu vi esse crescente desejo de autonomia. Antes ou depois, o desafio será lançado, será algo enorme, cujos resultados decidirão o destino de uma das religiões mais tenazes da história. O melhor das religiões, diria Ernst Bloch, é que elas produzem hereges.

Breve comentário: Em 2013, em julho haverá no Rio de Janeiro a Jornada Mundial da Juventude. Esse evento é um exemplo cabal do que escreve o autor: “o catolicismo está recaindo cada vez mais em formas públicas moderníssimas na forma e  pré-conciliares no conteúdo (i.é, anteriores ao Vat.II) aquelas que seguem o triunfalismo dos eventos midiáticos e requer por parte dos fiéis uma participação passiva “    A JMJ, será a apoteose do infantilismo religioso católico em terras brasileiras.

Com esta postagem encerro a caminhada de 2012. Voltarei a postar depois do Carnaval. Um abençoado Natal e um 2013 pleno de ações pelo Reino de Deus

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Apelo à desobediência. (p 109)

No post anterior, a menção ao APELO A DESOBEDIENCIA  dos párocos austríacos -  "pfarrer initiative" - ficou bem saliente. Me propuz então hoje a explicar um pouco o que vem a ser esse Movimento.
Em junho de 2011 cerca de 300 padres católicos austríacos, se articularam e assinaram um Manifesto em que  pedem reformas na prática da Igreja Romana. Chamaram seu movimento de  APELO Á DESOBEDIENCIA.  Tomaram essa atitude por se sentirem obrigados a seguir suas consciências pelo bem da Igreja, contrariando, em alguns casos, as orientações da hierarquia. Os bispos se recusavam a um diálogo  mais interessante, visando mudanças. Outro rótulo que ganhou o movimento foi de “iniciativa dos párocos”,  “pfarrer-initiative”,  no idioma local.
Em janeiro de 2012, constatando que sua iniciativa recebia muitas manifestações de apoio e incentivo vindos também de outras nações, enquanto dos seus bispos, apenas relutância e até violenta rejeição, formalizaram um PROTESTO  em cinco “ NÃO.” Começam dizendo que...
 “Raramente chegou-se ao diálogo, e jamais publicamente. Mas nós contrapomos muitas vezes à atual situação de sofrimento das comunidades e da pastoral devido à falta de padres e ao envelhecimento do clero um enfático NÃO:

1. Dizemos NÃO quando devemos assumir cada vez mais paróquias, porque isso nos transforma em celebrantes-viajantes e em dispensadores de sacramentos, o que foge do verdadeiro ministério. Por isso, nos opomos à tendência a uma presença fugaz em muitos lugares, sem encontrar nem oferecer um ambiente acolhedor espiritual e afetivo.

2. Dizemos NÃO a cada vez mais celebrações eucarísticas no fim de semana, porque, desse modo, muitos dos serviços e pregações se tornam um ritual superficial e um discurso muito rotineiro, enquanto o encontro, o diálogo e a pastoral se atrofiam. Chegar um pouco antes da missa e ir embora logo depois transforma o nosso serviço em uma rotina oca.

3. Dizemos NÃO à fusão ou à dissolução das paróquias onde não se encontram mais párocos. Desse modo, é a carência que dita as leis, em vez de remediar a carência com a mudança de leis eclesiásticas não bíblicas. A lei é feita para as pessoas – e não o contrário. O direito canônico, em particular, deve estar ao serviço das pessoas.

4. Dizemos NÃO às exigências excessivas sobre os párocos, que são levados ao estresse pelo cumprimento de inúmeros deveres, aos quais não sobra nem tempo nem energia para uma vida espiritual e dos quais se espera o cumprimento dos deveres muito além da idade de aposentadoria. Assim, até mesmo a ação meritória realizada durante a vida pode ser danificada se exigida por um período muito longo.

5. Dizemos NÃO quando o direito canônico pronuncia um julgamento muito duro e cruel: contra os divorciados que ousam contrair um novo matrimônio, contra as pessoas do mesmo sexo que se amam e decidem viver juntas, contra os padres que não conseguem respeitar o celibato e, assim, entram em uma relação – e contra as muitas pessoas que obedecem mais à sua consciência do que a uma lei feita pelos homens.

Como o silêncio é interpretado como consentimento e como queremos assumir a nossa responsabilidade como padres e pastores, nos sentimos no dever de expressar este protesto em cinco pontos. É um "protesto" no sentido literal: um "testemunho para" uma reforma da Igreja, para o povo ao qual queremos ser o pastor e para a nossa Igreja.

A desolação no atual sistema da Igreja não é um bom testemunho para a "boa notícia" que nos move. Porque "não é nossa intenção dominar a fé que vocês têm, mas colaborar para que vocês tenham alegria" (2 Cor 1,24).
Conselho da Pfarrer-Initiatvie
Janeiro de 2012
Podemos  avaliar a repercussão desse Movimento no mundo ocidental, através dos títulos de vários artigos publicados no sítio do IHU On line, que apresento em seguida, nem sempre como no original e comentando alguns.
Um grupo de padres e diáconos da diocese de  Rouen, na França manifesta sua aprovação e solidariedade ao Pfarrer-initiative. Por outro lado o Vaticano mostra apreensão diante dessa rebeldia. Pois, isso está influenciando também o crescente abandono da Igreja por parte dos católicos austríacos. O Vaticano porém, até agora não teve atitude drástica coercitiva para com os padres rebeldes. A simpatia de amplos setores para com o Movimento, se tipifica por uma premiação que receberam da Fundação Herbert-Haag pela liberdade na Igreja católica, consubstanciado em 10 mil euros.  Em solidariedade aos fieis da Áustria, da Irlanda e de muitos outros países, mais de 50 padres e leigos da Bélgica, publicaram, em 19 de outubro pp. um MANIFESTO em que pedem aos seus bispos reformas urgentes, na mesma linha dos austríacos. Pedem também que os fieis que compartilhem essas preocupações, assinem o Manifesto. Até 30 de novembro mais de 6 mil já assinaram.  Em Rottenburg, Alemanha, 154 padres se organizam em grupo, e pedem diálogo e reformas semelhantes aos da Áustria. Assim é que atualmente estão em contato grupos semelhantes de padres na Alemanha, Irlanda, França, Estados Unidos e Austrália. Fica claro então que não se trata de um problema só de alguns padres austríacos, como afirmou Helmut Schüller líder do grupo. Essa expansão e consolidação determinou a iniciativa de começarem a preparar para o próximo ano, provavelmente na Alemanha, uma grande reunião em nível mundial .Em função disso permanecem conectados em rede.
O teólogo mais famoso da Itália hoje, Vito Mancuso, deu ao seu último livro o título: OBEDIENCIA E LIBERDADE. Entrevistado pelo Vatican Insider sobre o seu livro, o repórter perguntou-lhe: “Portanto a desobediência pode ser um caminho para renovar a Igreja?” 
Vito responde: “O próprio papa, na sua homilia, se perguntou se a desobediência é uma via para renovar a Igreja. A pergunta, obviamente, era retórica, porque, para ele, a resposta é um explícito "não". A mim, parece que também pode ser "sim", na medida em que a desobediência exterior tem como fim uma maior obediência interior à lógica evangélica que se diz como bem concreto dos indivíduos concretos. Sem a desobediência da teologia na primeira metade do século XX (um nome dentre todos, Teilhard de Chardin), não teríamos tido o Vaticano II e a reviravolta radical acerca da liberdade religiosa, ecumenismo, relação com os judeus e as outras religiões, apenas para citar as inovações mais marcantes. É preciso continuar nesse caminho profético".
OBSERVAÇÃO  -  As informações todas deste texto foram tiradas de vários artigos do sítio IHU On line.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Em vez de exigir obediência cega. (p 108)

 No artigo anterior sobre a Sinodalização da Igreja, você ficou conhecendo o Movimento Internacional Nós Somos Igreja (IMWAC).Em outubro passado, dia 11 o papa proclamou o ANO DA FÉ aberto com o Sínodo sobre a Nova Evangelização. A propósito desses eventos, a Secção de Portugal do Movimento, publicou no seu site um COMUNICADO DE IMPRENSA, que, pela oportunidade e relevância, repasso. Nele há várias referências à iniciativa austríaca "Pfarrer-iniciative", que explicarei melhor no próximo post. 


Nós somos Igreja: O “Ano da Fé” deve ser também um “Ano de Diálogo”
O Movimento Internacional Nós Somos Igreja no 7º aniversário da eleição do Papa Bento XVI
Solidariedade com teólogos silenciados e com a iniciativa austríaca ‘Pfarrer-inititiave’
(Iniciativa dos Presbíteros)
‘O diálogo no seio da Igreja é a única maneira de ultrapassar a profunda e global crise atual
da Igreja Católica Romana’, afirmou o Movimento Internacional Nós Somos Igreja.
O Movimento declara a sua solidariedade para com a ‘Pfarrer-initiative’ austríaca e para com
os inúmeros notáveis e respeitados teólogos silenciados pelo Vaticano, os últimos dos quais são
os espanhóis Juan José Tamayo e Andrés Torres Qeiruga e os irlandeses Tony Flannery, Sean Fagan, Owen
O’Sullivan e Gerry Moloney.
Estes teólogos foram injustamente silenciados, sem terem sido sujeitos ao indispensável processo, e em absoluto
secretismo por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, sediada em Roma. (Se pretende uma explicação
mais aprofundada, siga os links no final desta folha.)
Por ocasião do 7º aniversário da eleição do Papa Bento XVI o Nós Somos Igreja convida
todos os fiéis a iniciar um diálogo franco sobre cada um dos pontos que fazem parte do apelo
publicado pela ‘Pfarrer-initiative’ e que já obtiveram tantas respostas positivas de todo o mundo.
O ‘Ano da Fé’, anunciado pelo Papa em memória do 50º aniversário do início do Concílio
Vaticano II (1962-1965) deve ser igualmente um ‘Ano de Diálogo’, afirma o Movimento
Internacional Nós Somos Igreja.
Em vez de exigir obediência cega, como o Papa fez na homília de Quinta-Feira Santa, todos os assuntos
incluídos no apelo da ‘Pfarrer-initiative’ devem ser minuciosamente avaliados um por um e não como um todo.
O seu ‘apelo à desobediência’ foi publicado pela primeira vez em Junho de 2011, após cinco anos de
malogradas tentativas de diálogo com a hierarquia.
A Igreja Católica Romana encontra-se atualmente mergulhada numa crise profunda. Os sete
anos de pontificado de Bento XVI têm vindo a pôr progressivamente a nu as fraquezas
fundamentais de todo o sistema da Igreja Católica Romana: a sua governação autocrática e
monárquica, a sua ‘sociedade dualista de presbíteros e leigos’ além da crescente centralização do Vaticano, em
rápida ascensão nos últimos anos, que mal concede qualquer responsabilidade às Igrejas locais.
Desde Novembro de 1981, quando o Cardeal Joseph Ratzinger foi nomeado pelo Papa João Paulo II Prefeito da
Congregação para a Doutrina da Fé, que o atual Papa influencia a Igreja Católica Romana a nível mundial e de
formas muito mais diversas e profundas do que as alcançadas pela grande maioria dos habitantes do Vaticano ao
longo de toda a História da Igreja. Mas Ratzinger demonstrou repetidamente a sua surdez perante as
preocupações manifestadas por bispos, teólogos e inúmeros ‘leigos’ de todo o mundo. A Teologia da
Libertação, em particular, foi por ele tratada com desconfiança e hostilidade.
Todavia, apesar de tantos obstáculos que entravam o diálogo, o Movimento Internacional Nós Somos Igreja
continuará a esforçar-se por criar um novo relacionamento com todas as nossas irmãs e irmãos da nossa Igreja,
segundo o espírito do Evangelho.
Uma lista das pessoas que, direta ou indiretamente, foram de algum modo investigadas, punidas ou
excomungadas pela CDF chefiada por Joseph Ratzinger (uma compilação de Catholics for Choice, 2006)
está disponível em www.wirsindkirche.de/files/212_2006movingforwardbylookingback_31-38.pdf.
Uma lista de 99 teólogos e líderes espirituais que foram excluídos, expulsos ou silenciados por Ratzinger
está incluída no livro de 2011 de Matthew Fox, The Pope’s War: Why Ratzinger’s Secret Crusade Has
Imperiled the Church and How It Can Be Saved (A Guerra do Papa: de que modo a cruzada secreta do Papa
pôs em perigo a Igreja e como é possível salvá-la)
No próximo texto, o "apelo à desobediência" dos párocos austríacos.